Pular para o conteúdo principal

Os Evangelhos – Um papo tenso e profundo com Nicodemus (12) – Parte 2

 



 

Leia João 3: 1-21

 

A segunda parte desse texto que estamos tratando começa com um dos versículos mais conhecidos da Bíblia: “... Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

 

Muitos insistem em usar esse versículo, isolando-o do restante da Bíblia para firmar a ideia de que Deus enviou Jesus com o propósito de oferecer salvação a toda humanidade sem exceção bastando o condicionante da decisão pessoal de crer. Mas será que é isso mesmo que a Palavra ensina se a olharmos de forma geral? O próprio Jesus no evangelho de João usa expressões que demonstram o contrário. A expressão “mundo” tem a conotação no contexto não de todas as pessoas, e sim do universo de pessoas no espaço e tempo, já temos aí uma profecia da inclusão dos gentios na igreja.

 

Aqueles que “O Pai me dá” não são uma possibilidade mas  uma certeza absoluta, "o que vem a mim" (6.37-40; 10.14-18; 17.19) "de modo nenhum o lançarei fora".

 

O mundo nesse verso indica que a obra salvífica de Cristo não é limitada a tempo e lugar pelo contrário se aplica a todos os eleitos de todas as partes do mundo.

 

Portanto com esse verso João passa a explanar a missão do Filho de Deus.

 

O amor expresso aqui nesse texto é repetido de alguma forma em vários momentos do livro de João. Em todos os casos listados a seguir são usados sempre ou o verbo ‘amar’ (agapaô) e o substantivo ‘amor’ (agapê).

 

O Pai ama o Filho - 3.35; 10.17; 15.9,10; 17.23,24, 26;

O Filho ama o Pai - 14.31;

Jesus ama os seus, seus verdadeiros discípulos - 11.5; 13.1, 33, 34; 14.21; 15.9,10; 12; 21.7, 20;

Os discípulos devem amá-lo - 14.15, 21, 23s., 28; 21.15-26

Os discípulos devem amar uns aos outros - 13.34,35; 15.12,13, 17; 17.26;

Deus ama os filhos. – Diretamente - 14.21, 23; 17.23;

Os seres humanos caídos e rebeldes de modo geral, não amam e não podem amar a Deus - 3.19; 5.42; 8.42.

 

João ao longo de seu evangelho e de suas cartas deixa claro que o amor de Deus não é a consequência de uma resposta da amabilidade dos seres humanos mas sim da sublime verdade que ‘Deus é amor’ (1ª João 4.16).

 

O verso 17 mais uma vez requer uma explicação a luz da Palavra como um todo, o próprio Jesus em outros momentos cita que voltará para julgar como na passagem em que há separação entre os benditos do meu Pai e os malditos. Muitas outras passagens nas Escrituras tratam do julgamento quando da segunda vinda. Aqui a ênfase podemos concluir está no fato de que o momento da separação do joio do trigo ainda não era chegado. Olhando para João 9:39 podemos enxergar alguma incoerência quando Jesus declara que “Eu vim a este mundo para julgamento (krisis)...”; de fato, João insiste que Deus deu a Jesus “autoridade para julgar (krinô), porque é o Filho do homem”[1]

 

Não é apenas no Novo Testamento que o Filho do Homem está investido do poder de julgar, vide Daniel[2].  E a explicação vem no verso 18 quando João afirma taxativamente que os salvos não serão julgados e os demais já estão condenados por um julgamento eterno. O Filho do homem veio a um mundo já perdido e condenado. Ele não veio a um mundo neutro para salvar alguns e condenar outros; ele veio a um mundo perdido para salvar alguns. Fica perfeitamente claro nos próximos versículos que nem todo o mundo será salvo embora o propósito de Deus na missão de Jesus era trazer salvação a ele. É por isso que Jesus mais tarde é chamado de ‘o Salvador do mundo.[3]

 

Os versos 19 e 20 trazem o veredicto (krisis) o qual é negativo. A luz veio ao mundo, com a encarnação da Palavra, e a luz brilhou nas trevas de forma mais brilhante ainda que na criação. Jesus, a luz do mundo[4] mas os homens amaram as trevas, e não a luz: eles preferiram viver sem o conhecimento era moral, as suas obras era más e fogem da luz para que suas obras não sejam expostas elengchthè os envergonhando. O oposto dessa posição é amar e praticar a verdade, agindo na luz com honra buscando estar sempre próximo a luz. Dois pontos de destaque:

 

“Primeiro, a pessoa que ama as trevas pratica o mal, uma sucessão indeterminada de atos indignos (o objeto em grego é anartro, ho phaula prassôn)-, sua contraparte pratica a verdade {ho de poion tên alêtheiari), que sugere aderência à verdade como ela está em Jesus Cristo.

Segundo, e mais importante, enquanto o que ama as trevas evita a luz por medo de exposição, vergonha e condenação, o que ama a luz não se ensoberbece para desfilar suas mercadorias com pretensiosa auto justificação, mas vem para a luz, para que se veja claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus. Essa estranha expressão deixa claro que quem ama a luz não é uma pessoa intrinsecamente superior. Se essa pessoa gosta da luz, é porque tudo que se realiza, pelo que não há vergonha nem condenação, é feito ‘por intermédio de Deus’ - ‘em união com ele e, portanto, por seu poder’ (Westcott, 1. 124). Nem é o bastante (com Lattke, pp. 64-85, e outros) sugerir que esses amantes da luz são gnósticos ou algum outro grupo que ama a luz desde o começo, pessoas que nunca pertenceram ao ‘mundo’, que sempre respondem positivamente à revelação divina. “

 

 

Um segue seu curso porque suas obras são más; outro segue seu curso não porque suas obras sejam justas, mas porque deseja mostrar que suas obras foram feitas por intermédio de Deus.

 

 



[1] João 5:27

[2] Daniel 7:13,14

[3]  João 4.42; 1ª João 4.14

[4] João 8:12

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Ó profundidade!” — Um vislumbre da mente insondável de Deus - Romanos 11:33-36

  “Ó profundidade!” — Um vislumbre da mente insondável de Deus Romanos 11:33-36 Romanos deve ser a porção mais densa do Novo Testamento no âmbito doutrinário, revelando atributos de Deus de forma cabal. Nos capítulos de 1 a 11, Paulo descreve em minuciosos detalhes e com argumentos robustos o caráter do Deus altíssimo. Nos livros de Jó, Habacuque e Jeremias, Deus mesmo se mostra como sendo de uma imensidão incompreensível ao homem, os servos de Deus são confrontados de forma violenta quando questionam os desígnios divinos. Paulo em Romanos vai desdobrando a forma como Deus conduz a humanidade ao longo das eras, e como soberanamente põe e dispõe a história para que seu decreto eterno seja cumprido. Ao final dessa porção mais densa e doutrinária da epístola aos Romanos (capítulos 1 a 11), Paulo não conclui com uma fórmula lógica ou com uma aplicação moralista, mas com um cântico de exaltação, uma doxologia que tenta traduzir toda exuberância e majestade de Deus. Ele não encerra...

Firme Seus Valores O Patrimônio Interior do Cristão Neste Mundo em Cristo. - Lição 15

Firme Seus Valores O Patrimônio Interior do Cristão Neste Mundo em Cristo. O objetivo desta lição e levar o leitor a refletir profundamente, a meditar muito sobre os comos e porquês, numa época em que a atitude mais popular é "não se envolver. Esperamos que o leitor "Firme Seus Valores" e maneira desafiadora. Martinho Lutero disse: "Quem prega o evangelho em todos os seus aspectos, menos nas questões relacionadas com os problemas de seu tempo, não está pregando o evangelho." Embora ele fosse um monge do século XVI sua mensagem é um apelo à relevância. E foi com muita coragem que ele se aplicou às causas que realmente Importavam. Ele viu a igreja "doente", paralisada pela tradição, corrupção e apatia. Ele removeu os entulhos secos de uma formalidade sem sentido, desafiou interpretações bíblicas inexatas, e pregou toda a verdade, correndo o risco de ser considerado herege. E à medida em que o Espírito Santo lhe dava novas revelações e fo...

Porque Crer na Soberania de Deus

Salmo 62:11: " Uma vez Deus falou, duas vezes ouvi, que o poder pertence a Deus ". Leia: 1o Crônicas 29:10-14 Como crer na soberania de Deus, após catástrofes e tragédias? Como crer na soberania de Deus diante de situações como violência, enfermidades, problemas familiares, desemprego, etc? Sua Palavra nos dá condições de confiar que ele está presente, no controle e regendo todo o universo. "Por que devemos crer na soberania de Deus?".  1. Porque tudo pertence a Ele. (11) Estamos diante de um versículo que nos ensina que a soberania de Deus reside no fato dele ser o dono de todas as coisas. Interessante, que por não entendermos muito bem isso, muitas vezes preocupamo-nos se teremos a provisão financeira para o mês inteiro, se teremos saúde para realizar nossos projetos profissionais e se teremos o pão nosso de cada dia. 2. Porque Ele domina sobre todos. (12) Quando nos debruçamos sobre a história da humanida...