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As falsas premissas que contaminam os debates.

 


É quase impossível debater qualquer assunto hoje em dia. Essa minha afirmação vale para política, religião, futebol, música, arte, vestuário e até culinária.

 

O grande problema a meu ver não são parcialidades ou imparcialidades, nem tampouco o uso de preconceitos. Eu já disse em vários momentos que todos nós, eu inclusive, somos preconceituosos, e que isso não é um problema em si. O fato é que todos nós emitimos nossas opiniões, e mesmo a descrição de um fato já carrega opiniões, até se colocarmos aquelas vozes de robôs simuladores de linguagem do google para narrar, baseados em pressupostos de nossa cosmovisão. Os preconceitos só passam a ser problema quando são barreiras que nos impedem enxergar a realidade como ela é, ou passarmos a torcer a realidade para que ela se encaixe em nosso modelo.

 

E é sobre isso que quero falar. Quase toda conversa com contraditórios iniciam com os interlocutores assumindo algumas ou todas essas características abaixo:

 

1.    Definindo o pensamento do outro. Ao invés de ouvir eu “já sei” o que o outro pensa e tem a dizer, logo não preciso ouvi-lo, e já tenho então todas as armas argumentativas prontas para usar.


2. Estabelecendo rótulos. Claro que o agrupamento de ideias por caminhos de pensamento muitas vezes é necessário para entendermos mas na maioria das vezes isso é usado para supor e impor ao pensamento alheio segundas intenções, o famoso “o que é que você quis dizer com isso?”, só que numa forma mais danosa ainda porque já interpretamos que o outro quis dizer algo bem maligno ou ofensivo.

 

3. Enxergando um inimigo imaginário. Muitas crianças na infância criam amigos imaginários, o problema é que adultos andam criando os inimigos imaginários. Estabelecem o que se convencionou chamar de false flag ou como eu prefiro chamar encontram um espantalho e passam a combater esse espantalho. As pessoas criam um inimigo ou enxergam dragões monstruosos quando só existem moinhos de vento e montados em seus Rocinantes saem a combate-los

 

4.  Misturando fatos e argumentos. É muito comum as pessoas misturarem em suas dissertações fatos e opiniões. Apresentamos com bastante regularidade nossas opiniões como se fossem fatos comprovados por números e evidências verificáveis. Como tomamos nossas opiniões como fatos fica fácil construir a narrativa que nos convém.

 

5. Estabelecendo o resultado qualquer seja a equação. Nós sabemos qual o final da nossa argumentação, onde queremos chegar, ou o que queremos comprovar, depois então montamos nossa equação. Parece muito aquela piada do bom contador que diz que o bom mesmo é o que pergunta ao dono da empresa quanto ele quer que seja 2+2. Desse jeito cada fator da soma pode assumir valores diferentes. Eu quero demonstrar que A é causado por B e danem-se os fatos, os números e as evidências. Ou como diz um dito popular, se os fatos não demonstram aquilo que desejo, pior para os fatos. Serão torcidos e distorcidos a nosso bel prazer, ou ainda pinçados parcialmente de acordo com cada conveniência.

 

6.   Defendendo meus ídolos. Assumo que determinadas pessoas são as iluminadas e tudo que elas disserem são a total expressão da verdade, e claro, tudo que disserem contra ela são apenas ataques sem fundamento.

 

7.    Querendo apenas vencer. Nosso alvo não é apresentar nossos argumentos e quem sabe convencer nosso interlocutor ou ser convencido por ele, ou muitas vezes construir um síntese com ideias de ambos, embora esse conceito de quem síntese meio termo nem sempre seja possível, existem sim valores que são absolutos e nem tudo pode ser relativizado. Aliás o certo quase nunca está ponto médio entre duas posições, e sim existe certo e errado na maioria das coisas da vida.

 

Como disse vemos isso em todos os tipos e áreas de debate. Montamos o cenário que nos é confortável, e por ali caminhamos. Não há como existir dialogo saudável nesses contextos, ninguém aprende nada. Ou terminamos por estar numa sala fechada com paroladores incessantes que não param a verborragia e onde ninguém na verdade está ouvindo ninguém. A famosa conversa de doidos.

 

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