Embora tenha bastante respeito e uma certa admiração pelo Rev. Augustus Nicodemus não tenho procuração para defende-lo, tampouco acho que ele precise de defesa. Não por essas razões resolvi fazer uma análise mais detida de sua entrevista publicada na Folha, considerando que o que ali está seja o que ele disse já que não vi ou ouvi nenhuma manifestação dele próprio em contrário.
A entrevista gerou alguma polêmica em arraiais evangélicos, mas será que há motivo para polêmica? Claro que minha análise leva em conta a confessionalidade da minha igreja, a Igreja Presbiteriana do Brasil, da qual o pastor faz também parte, e também leva em conta resoluções da mesma igreja, obviamente desde que estejam debaixo dos princípios éticos e morais do cristianismo confessado pela mesma.
A entrevista completa para quem não leu está copiada no fim desse artigo, lembrando que ela foi feita a respeito de seu novo livro “O que a Bíblia fala sobre dinheiro.”. Não por acaso o assunto mais focado nem foi o livro e sim a questão da semana envolvendo a liberdade ou não das igrejas continuarem realizando seus cultos de forma presencial.
Vamos abordar apenas as perguntas que vimos gerar algum debate.
Houve uma certa celeuma pela citação dos neopentecostais. Primeiramente a associação do nome como um bloco monolítico é feito pela entrevistadora e não pelo entrevistado. Ele responde que citou no livro os nomes da Universal, da Mundial e da Internacional, todas elas definidas como seitas oficialmente pela IPB, logo não vemos nenhuma razão para que membros da IPB se sintam incomodados. Por outro lado é mais do que óbvio que a maioria das igrejas neopentecostais são de fato balcões de negócio e exploração da fé dos que as frequentam, então por analogia de pregação e comportamento tantas outras são exatamente isso mesmo, seitas.
Ele cita ainda que o ensinamento herético da retribuição material que é pregado por essas seitas que muitos consideram como evangélicas na verdade depõe contra o Evangelho de Cristo.
Fala assertivamente sobre o que a Bíblia diz sobre dinheiro e riquezas, nem demoniza, tampouco as apresentam como objetivo de vida. Cita ainda o comportamento reprovável de líderes religiosos que vendem objetos e benções em troca de contribuições. Explica o dízimo e o porque das contribuições às igrejas.
Chega-se então a questão das igrejas abertas ou não. Primeiro ele cita questões referentes a legalidade da medida e apela a preocupação cívica e também cita que algumas igrejas, sem citar nomes, podem ter preocupações mais com arrecadação do que cristãs e cívicas, mentiu ou exagerou? Cita sua visão sobre o lockdown, concorde ou não você com a posição dele, ele apenas estabeleceu sua visão.
Dá sua visão política pessoal sobre Bolsonaro. Faz algumas considerações pessoais sobre o presidente que são posições dele e cada um pode concordar ou não, e expressa o sentimento legítimo que talvez seja de boa parte da população brasileira que votou em Bolsonaro. Não o vejo tendencioso, malicioso ou desrespeitoso em nenhum momento.
A repórter tenta de todas as maneiras arrancar dele uma declaração de voto futuro e, no meu entender, sabiamente, ele põe apenas com clareza como deve se portar o eleitor cristão, considerando quem mais se aproxima dos valores éticos e morais nos quais acreditamos.
Termina a entrevista citando sua posição pessoal de nunca ter votado em Lula e cita que existem denominações chamadas evangélicas que buscam se ligar ao poder em troca de benesses fiscais, nem sempre legais, o que é a verdade que salta diante de nossos olhos.
Portanto não vemos qualquer razão para polêmica e ataques virulentos a quem quer que seja. Uma entrevista equilibrada, de um pastor da IPB que em nenhum momento diz estar falando, ou mesmo insinue, em nome da Igreja Presbiteriana do Brasil, exercendo sua cidadania e seu papel como cristão.
O ódio latente das redes sociais precisa ser posto sempre sob o crivo da ética e moral cristã revelada na Bíblia conforme a vontade de Deus. A polêmica talvez tenha vindo a partir da postagem do Rev. Milton Ribeiro no facebook criticando o posicionamento do Rev. Augustus. Pessoalmente achei deselegante, desnecessário, infiel aos fatos e denotando um açodamento em agradar politicamente.
Deselegante na forma e no meio em que foi veiculado. Desnecessário por quê não acrescente absolutamente nada ao debate e a visão cristã dos fatos que tratam. Infiel por atribuir afirmações que não foram ditas ao Rev. Augustus, como insinuar que ele estivesse indo em sentido contrário a um posicionamento oficial da IPB. E a vontade de agradar politicamente a uma suposta base de apoio evangélica a sua manutenção como ministro da educação parece evidente.
Não vou aprofundar o assunto aqui mas tenho uma visão bem crítica de pastores exercendo outras atividades além do pastorado. Já escrevi antes sobre isso, poder ser lido clicando aqui: ( http://penso-e-creio.blogspot.com/2015/05/chamado-para-ser-pastor-professor.html ), mas de forma resumida não funciona na minha cabeça a ideia de que um varão vocacionado para atuar no sagrado ministério, apascentando as ovelhas de Cristo, encontre maior vocação e ministério, sem nenhum trocadilho, em qualquer outra atividade. E ninguém tente me convencer que os afazeres de ministro de estado deixem tempo para uma dedicação ao pastorado, e cito isso da mesma forma em relação aos Rev. André Mendonça. A única atividade que enxergo relacionada ao pastorado é a atuação na área de ensino religioso, e se isso não o sobrecarregar em atividades que o afastem da disponibilidade para o aconselhamento, estudo devocional, preparação dos sermões etc. Mesmo o envolvimento na administração eclesiástica deve ser conduzida com cuidado. Não existe nada mais sublime na vida cristã do que ser chamado pelo próprio Deus para cuidar daquilo que é mais precioso para o Pai.
Espero que de alguma forma esteja contribuindo, mesmo que pouco, para pacificação de uma questão que sequer deveria ter suscitado rusgas.
ENTREVISTA
Por que este tema agora?
O livro veio como resultado da minha preocupação com o que a pandemia poderia trazer, em termos financeiros. Àquela altura, todo mundo sabia que junto com um problema grave, a doença, viria outro, econômico. Quis dar uma visão geral dos recursos.
O sr. Diz que a Teologia da Prosperidade, comum em igrejas neopentecostais, deixa pastores sem graça de pedir contribuição dos fiéis.
Chamo pelo nome algumas igrejas que a gente não considera como tais [ele cita no livro a Universal do Reino de Deus, a Mundial do Poder de Deus e a Internacional da Graça]. O mundo evangélico é bem complexo. Muitos pentecostais clássicos infelizmente aderiram à teologia em tempos recentes.
O que é essa teologia?
Ela enfatiza que Deus abençoa materialmente quem contribui para a igreja, mas releva o ensino bíblico que isso não acontece sempre. Crentes generosos podem ficar pobres e doentes. A teologia está certa quando diz que Deus pode nos abençoar financeiramente, mas errada quando diz que Ele é obrigado a fazê-lo se você dá o dízimo. Jesus ensinou que Deus dá o pão de cada dia, não o pudim, o supérfluo, por assim dizer. Como neopentecostais são boa parte do que chamam de evangélicos, a gente fica meio sofrido, os escândalos jogam todo mundo na vala comum.
Como igrejas históricas, como a Presbiteriana, entendem o dízimo?
Por conta dos excessos, a gente vai para outro lado, fica com medo de falar a respeito de dinheiro. Também é errado. A Bíblia fala mais de dinheiro do que de amor. Tem muita coisa sobre gestão financeira. Evangélicos dependem muitas vezes de recursos contadinhos para viver. E uma coisa que ficou fora do livro, mas que eu queria falar, é sobre o coaching cristão.
Há canais virtuais como o Cristão Rico, que ensina a “sair das dívidas”. É isso?
O chamado coaching evangélico se baseia em princípios que são fantásticos se aplicados no meio secular [como evangélicos se referem aos de fora da igreja]. Tem que seguir uma série de princípios para alcançar objetivos financeiros, e tudo bem. Mas quando se aplica isso à igreja, aí já vai ficar um pouquinho complicado. A Bíblia nos ensina a confiar em Deus, não viver ansiosos, não fazer da prosperidade a meta maior da vida. Fica difícil colocar isso dentro da equação do coaching.
O que, afinal, a Bíblia diz sobre dinheiro?
O dinheiro em si não é bom nem mau —depende da nossa atitude para com ele. Não devemos fazer do dinheiro o deus da nossa vida. Jesus prega que a gente não viva ansioso com o que vai comer, beber, vestir. Deus cuida dos passarinhos, veste o lírio dos campos, não cai nenhum fio da nossa cabeça. Diz que os pagãos ficam ansiosos porque não têm um Pai. E é um alerta contra os mercadores da fé.
Quem são eles hoje?
Nas palavras do apóstolo Paulo, os que “pensam que religião é uma forma de enriquecer”. Na Idade Média vendiam indulgências, relíquias, pedaços da cruz etc. Hoje, vendem objetos ungidos e oferecem bênçãos materiais em troca de ofertas e dízimos. Eles enriquecem, e os fiéis ficam pobres.
O dízimo por vezes é estigmatizado fora da igreja. Como funciona na sua?
Entendemos que contribuir faz parte da gratidão que prestamos a Deus. Sabemos que tem falsos profetas, mercenários, que utilizam da crendice do povo para arrancar até o último centavo. Mas não tem como igrejas sérias se manterem e ajudarem os pobres [sem as ofertas]. De onde vem esse dinheiro? O Estado é laico, a igreja não recebe nada do governo. Precisa de recurso para manter instalações funcionários, os pastores são assalariados.
O sr. Dá 10% de seus rendimentos à igreja? Essa porcentagem está na Bíblia?
O valor de 10% (dízimo) é desde o tempos dos patriarcas, fez parte das leis cerimoniais de Israel e é praticada pelos cristãos como referência de contribuição que é regular, generosa e proporcional. Não vemos como lei, mas gratidão. E sim, contribuo com 10% dos meus proventos.
Templos devem ficar fechados, ao menos em fases críticas?
Há duas questões para separar. Quando a gente briga para manter igreja aberta dentro das regras sanitárias, é pelo direito de culto garantido pela Constituição. A única maneira de evoga-lo é o estado de sítio, e só o presidente pode declarar um, o Congresso tem que aprovar. Do jeito que está não está bom, é uma coisa que está saindo da cabeça de governadores e prefeitos. Fechar de forma arbitrária é a Constituição sendo violada. O que vem depois?
O sr. Citou duas questões.
Infelizmente, muitas igrejas que querem manter o culto não fazem isso com preocupação cívica. Estão preocupadas porque têm um sistema de arrecadação que depende do [culto] presencial. Para não serem estranguladas financeiramente, vão dizer o que for necessário para defender igrejas abertas.
Acha que o lockdown é necessário agora?
Tenho dificuldades com o lockdown como medida para resolver [a pandemia] em definitivo. Minha igreja é de classe média. Quem tem sofrido muito é o pessoal de classes mais baixas. Acho que não é resposta para essa situação. Há outros aspectos.
Quais?
Há pessoas que entram em depressão, o nível de divórcio aumentou... Você é obrigado a estar em casa com sua mulher, coisa que não fazia antes. As famílias se fragmentando, pessoas em busca de ajuda profissional para saúde mental. Tem gente que vai dizer, ‘é direito meu, prefiro arriscar morrer desse vírus ou eu morro sem ganhar o pão de cada dia’. O lockdown fere muito o trabalhador, a diarista. O pessoal das classes média e alta não sentem tanto. Vão fazer como você e eu: home office.
Para a economia se recuperar, há consenso de que precisamos baixar os números da pandemia. Como atingir essa meta sem medidas que surtamefeito rápido?
Lockdowns causaram o desastre na economia, não vejo como podem ser a cura dela. Talvez se tivéssemos usado desde o início lockdowns verticais e localizados, medidas sanitárias já comprovadas e educado a população para usá-las, quem sabe salvaríamos o mesmo número de pessoas sem destruir seus empregos e sanidade mental no processo.
O sr. Apoiou Bolsonaro em 2018. Voltaria a fazê-lo?
Olha, votaria mais uma vez dependendo de quais seriam as opções. É o voto útil, menos ruim. Infelizmente, [o presidente] se precipita com as palavras,toma atitudes que não ajudam a população. Todo mundo reconhece que ele poderia ter sido mais prudente na condução da pandemia, até pelo próprio exemplo —ele aparece sem máscara. Poderia ter se saído melhor.
Mas ainda seria sua opção em 2022.
A questão toda é que o cristão, ele olha a agenda de costumes. [Bolsonaro] tem uma agenda conservadora, mais próxima dos evangélicos. Se aparecesse um candidato com questões relacionadas à família, certamente eu votaria. Olhando as opções que têm aí, ainda me vejo sem muitas opções.
Não vê ninguém à direita que abrace essa pauta?
Teve uma época em que a gente tinha esperança no Sérgio Moro, mas depois ficamos meio sem saber onde ele está.
Alguns pastores de peso, de Edir Macedo a Silas Malafaia, foram aliados de Lula no passado.
Nunca votei no Lula. Infelizmente, tem muitas igrejas penduradas com o fisco e que têm interesse em ficar do lado do poder. Estão devendo até a alma.
ENDEREÇO DA PÁGINA

Parabéns pelo comentário, além de ser muito equilibrado e sensato, é muito pertinente. Que Deus continue lhe abençoando.
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