Tinha
uma tia que já faleceu há alguns anos, e como a família de minha mãe
era muito grande, foram 11 irmãos, essa minha tia tinha idade de ser
minha avó. Era conhecida na família como Mãe Velha, mesmo por ter
ajudado a criar alguns de seus irmãos sendo ela uma das mais velhas da
turma, tia Maria Haydê. Lembro que ela nos colocava no colo e
ficávamos sendo jogados para cima sempre com mesmo refrão, "menino
novinho da mãe velha".
Reza
uma das lendas familiares que Mãe Velha tinha um medicamento que era
aplicado em quase todas as situações. Da mesma forma que o Bombrill tem
1001 utilidades o Vicky Vaporub servia para senão 1001, pelo menos mais
de uma dezena de problemas.
Saudades da infância.
Mas
indo de encontro ao título deste post, temos na alma brasileira de fato
um conceito de que a solução dos problemas sempre é por um quebra-molas
para resolver qualquer tipo de problema.
Primeiro
tratando o próprio, se não conseguimos punir o sujeito que corre
demais, pomos uma lombada, em geral construída de forma a punir
igualmente quem passar a 30 km/h ou a 100 km/h naquele local, e na
prática serve apenas aqueles 50 a 100 m antes e depois dele.
Existe um artigo de Bob Sharp onde ele diz que o quebra-mola “É um recurso burro e antinatural para reduzir a velocidade do tráfego”.
Tem
se tornado no Brasil recorrente a idéia de que o aumento de penas ou
banimento de certas coisas é a solução para a situação. Lembro de ter há
muito tempo atrás ouvido de um jurista famoso, cearense, falecido em
2010, Armando Ribeiro Falcão, que havia sido ministro da justiça no
Governo Geisel que o que impele o potencial criminoso a não cometer o
delito, não é o tamanho da pena e sim a certeza de punibilidade.
Hoje
no Brasil virou moda aumentar a pena de tudo como se isso resolvesse
por mágica o problema. A questão é que se cria distorções entre penas,
onde matar uma pessoa é um crime que tem fiança e talvez xingar essa
mesma pessoa não tenha. Dar um tiro pode ser mais negócio do que
atropelar. E a piadinha já há muito conhecida que diz que é melhor matar
o fiscal do Ibama do que a onça. Muito dessa onda tem a ver com uma
coisa chamada ditadura da minoria, mas isso merece um post a parte.
Nos
atendo a questão principal aqui, vemos cada vez mais essa idéia do
tamanho da pena ser aplicada. Caso da questão de beber e dirigir. Olhe
que não bebo, por opção mesmo, mas quem é mais perigoso um bêbado a 20
km/h ou um sóbrio a 100 km/h dentro da cidade? Certamente o segundo, mas
esse dificilmente será pego, e se pego terá uma pena menor do que
aquele outro. Não sei, mas vejo algo errado nessa medida de punição. E
outro grande problema é que se pune pesadamente um entre milhares, óbvio
que esse punido enquanto infrator não pode reclamar, mas o que ressalto
aqui é que se não houver uma maior convicção de todos de que tem boas
chances de serem pegos, nada mudará.
A
questão do momento agora é a morte do joven torcedor do San José, de
Oruro na Bolívia. Volta a questão da torcida organizada ser banida em
todos os estádios, olhe que mais uma vez estou fora, não pertenço nem
nunca pertenci a nenhuma torcida organizada, mas não enxergo que a
solução seja essa. Fiscalizar, colocar câmeras e identificando os
brigões, estes sendo proibidos de frequentar estádios já resolveria e
não fazer aquela humilhante revista na entrada de estádios em todos os
torcedores.
Aliás
esse é um capítulo a parte, a polícia brasileira em geral age no
esquema binário das forças armadas quando em guerra, usa a mesma farda
que eu, é meu amigo, não usa a mesma farda é meu inimigo. A polícia
brasileira não tem a menor noção que a sua função é proteger o cidadão
de bem e não matar o bandido. Ela em geral age com o objetivo de
destruir o inimigo e se para isso alguns inocentes morrerem, é apenas um
efeito colateral aceitável.
Se
a sociedade brasileira não entender que o problema não é o tamanho da
pena, e sim a certeza de impunidade, nada mudará, nada melhorará. Quem
comete crime, em qualquer idade, classe social, independente de raça,
cor, formação e poder econômico deve ser punido e aí não precisaremos
mais usar a expressão punido exemplarmente, já que os exemplos serão
tantos que tornarão a prática de um delito qualquer que seja algo a se
pensar duas, tres, quatro .... vezes antes de ser cometido.

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