Pular para o conteúdo principal

Devocional: Tiago 2 – Acepção de Pessoas e Fé Morta

 



 No segundo capítulo Tiago traz duas admoestações bem definidas em relação ao comportamento do Cristão em relação ao Evangelho.

 

Não se deve fazer acepção

 

O texto pode ser encarado de duas formas, ambas críticas. Na primeira forma de entender a ênfase estaria na questão da riqueza e proeminência das pessoas. Na segunda o foco estaria em questões exteriores aparentes sem considerar o íntimo. É claro que o cuidado com esse tipo de comportamento não se contrapõe a orientação para o discernimento entre o bem e o mal. O que temos aqui é uma orientação para que os cristãos não julguem e separem aqueles que querem se aproximar sinceramente do Evangelho, baseados na aparência e na vida anterior deles.

 

A principal razão que temos para não agir com acepção é que o próprio Deus se revela como alguém que não faz acepção e isso está muito claro quando entendemos que a eleição é totalmente incondicional, nada nas pessoas eleitas foi razão desta eleição, apenas o amor e a graça de Deus agiram na decisão tomada por Deus na eternidade sobre quem Ele decidiu amar.[1] Lembro de certa feita ter ouvido a seguinte expressão: “... ele tem um comportamento muito correto, só falta aceitar, é quase crente ...” a pessoa que me falou claramente entendia que ali estava uma pessoa que “merecia” ser crente. Da mesma forma já ouvimos bastante que: “... aquela pessoa já sofreu tanto nessa vida que certamente Deus está olhando por ela ...”. Não, nossas percepções humanas não definem ou determinam quem é ou não eleito, nem o rico, nem o proeminente, nem o de bom comportamento, nem o humilde, nem o pobre, nem o doente. Simplesmente porque não há nada em nós que possa agradar a Deus que não esteja em Cristo. O autor encerra essa parte com uma advertência para o uso de misericórdia, e diz que aquele que não usa de misericórdia também será tratado da mesma forma.

 

A fé que é morta

 

Primeiro vamos tratar de duas perguntas feitas por Tiago: “... qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” Será que Tiago está dizendo aqui que a Fé não é suficiente para a salvação e está por consequência dizendo que boas obras são itens complementares num processo?

 

Acho que a luz de toda Bíblia devemos compreender que essas perguntas de Tiago são retóricas. Tiago não está adicionando um complemento como requisito para salvação e sim afirmando com todas as letras que não existe fé que não gere por consequência boas obras. “A fé que não produz nenhuma ação não é uma fé salvadora. O Novo Testamento não fala de uma justificação através de uma profissão de fé ou de uma afirmação de fé; ele ensina justificação através da possessão de uma fé verdadeira.”[2]

 

O que Tiago critica aqui é uma fé falsa que se expressa apenas através de palavras sem que as ações da pessoa manifestem de forma patente aquilo no que ela diz crer. Nesse ponto me lembro de uma música de Sérgio Pimenta:

 

Fonte

 

As palavras não dizem tudo

Mesmo que o tudo

Seja fácil de dizer

Com certeza fala bem melhor o mudo

Se sua atitude manifesta o que crê

 

Compromisso sumiço, omisso

Ou faz o que fala

Ou se cala de uma vez

Que não venha sobre si justo juízo

Pois terrível cousa é cair nas mãos do rei

 

Mesma língua que abençoa, amaldiçoa

Mesma língua canta um hino

E traz divisão

Não pode da mesma fonte

O doce e o amargo

Se Cristo habito de fato no coração

 

Mais uma vez enfatizamos que as boas obras citadas na Bíblia não se referem exclusivamente a ações de assistência social, mas a uma visão completa e integral de comportamento daquele que diz professar a fé.

 

Encerramos esse artigo de hoje voltando a falsa ideia de que pode haver um conflito entre Tiago e Paulo. Nem de longe podemos admitir essa ideia, o que temos em Tiago é um combate a hipocrisia que possivelmente fosse um problema grave nas igrejas para onde ele destinou essa carta / sermão. Se olharmos com cuidado para Paulo veremos que ele igualmente sempre enfatizou que a era muito mais do que um simples arcabouço de crenças e que ela sempre desemboca numa prática de integridade moral e ética cristã.

 

Voltaremos ainda a esse tema no próximo artigo.



[1] 1ª Coríntios 1.28-29; Efésios 1.4

[2] Comentário da Bíblia de Estudo de Genebra

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Conhecendo o Presbiterianismo I - Quem Somos e de Onde Viemos

¡   O que Somos §   A IPB é uma federação de igrejas que tem em comum: ▪       História; ▪       Forma de Governo; ▪       Teologia ▪       Padrão de Culto, Liturgia e Vida Comunitária ¡   De onde viemos §   A IPB pertence ao grupo das igrejas REFORMADAS . ▪       Fundada em 1859 a partir do trabalho missionário da PCUSA (Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos); ▪       A origem do Presbiterianismo remonta ao século XVI nas igrejas protestantes reformadas da Suiça, com Ulrich Zwinglio e Jean Calvin, e da Escócia com John Knox.   ¡   Porque Presbiteriana §   O nome vem a partir da forma de administração. ▪       A IPB é administrada por PRESBÍTEROS eleitos pelas comunidades locais; ▪       Sendo ...

Identidade Presbiteriana

Eis a Identidade Presbiteriana - Rev. Ageu Magalhães INTRODUÇÃO A “identidade presbiteriana” é bastante citada no contexto presbiteriano, mas é quase um jargão não muito bem definido. Por conta desta indefinição foi que resolvi escrever algumas linhas sobre o assunto, algo sintético mesmo. Alisto abaixo o que é distintivo em nosso sistema e, na sequência, a explicação de cada um dos pontos: - Governo: Representativo - Ofícios: Presbíteros (docentes e regentes) e Diáconos - Regra de Fé e Prática: Bíblia - Teologia: Reformada, Aliancista - Subscrição: Confissão de Fé, Catecismos Maior e Breve de Westminster - Culto: Princípio Regulador do Culto (só o que é prescrito na Bíblia é permitido) - Dons espetaculares: Cessacionista  - Ceia: Presença Espiritual de Cristo - Batismo: Aspersionista e Pedobatista 1. GOVERNO REPRESENTATIVO As 3 principais formas de governo de igreja são: 1. Episcopal - Um governa todos. A decisão final sobre os assuntos da i...

A SOBERANIA (LIMITADA?) DE DEUS.

  Vez por outra participo de algumas conversas em grupos de WhatsApp de assuntos cristãos. Coisas que me cansam sobremaneira nesses grupos: 1. O mono tema. Parece que todo o arcabouço doutrinário gira em torno de predestinação e eleição. 2.     A imensa dificuldade das pessoas lerem o que está escrito de forma objetiva. 3.   A propensão quase total de estabelecerem por suas cabeças o que os outros pensam, definir qual argumento que querem combater, em geral é uma False Flag [1] ou como prefiro um espantalho, e passar a definir o que o outro lado pensa. Exatamente dentro desse quadro me deparei com uma pessoa que me traz afirmações peremptórias como as que passarei a analisar a seguir. “ Não fazia parte dos planos de Deus ,isso foi um investimento em cima de Jó tanto de satanás como de Deus. Isso não aconteceu por que Deus planejou, mas sim por que satanás acusava a  Jó diante de  Deus ,que Jó era fiel por que Deus...