O
que o marxismo e o gramscismo tem a ver com a uma cosmovisão cristã distorcida.
Tratar desse assunto tão próximo a eleições sempre é complicado
porque pode parecer algo partidário, ainda mais no Brasil atual onde os ânimos
estão bastante exacerbados.
Por outro lado, não há como não tratar algumas questões que nos
parecem por demais claras e que tem muito, mas muito mesmo a ver com uma
cosmovisão que conflita em muitos pontos com a cosmovisão cristã e bíblica.
Antes um pouco de história e economia. O comunismo como sistema
ideológico-econômico sistematizado começa a nascer em Karl Marx, mesmo que
figuras anteriores a ele já tivessem lançado algumas bases bem anteriores.
Não é nosso objetivo aqui esmiuçar o assunto. Talvez o alicerce de tudo
que é o fim das classes sociais venha já desde Platão.[i]
Ainda no século XVII experiências ligadas a religião com os anabatistas nos
Estados Unidos com suas comunidades onde apesar de não existirem classes,
havia uma outra motivação que era a questão do entendimento bíblico, e claro se
atinha a pequenas comunidades que se comunicavam com o ambiente externo num
sistema totalmente diferente do deles.
O comunismo sistematizado como falamos veio surgir em meados do
século XIX, quando Karl Marx bebendo inicialmente muito do filósofo Friedrich
Engels lança o Manifesto Comunista em 1848. Mesmo sendo ambos egressos da elite
dominante da época trazem uma crítica feroz ao que chamam de divisão de
classes, e no manifesto ficam claras três abordagens fundamentais para eles:
- fim da propriedade privada sobre a terra,
- fim dos direitos relacionados à herança,
- entrega dos meios de produção ao controle
do Estado.
É inegável que a época as estruturas que separavam ricos e pobres,
ou nobreza e vassalos ainda era muito marcante, a industrialização ainda
começava, e muito do feudalismo rural que dominou os séculos anteriores
ainda se fazia presente e de certa forma transformado para o ambiente urbano.
Essa ideia se desenvolveu na Europa fortemente em apenas um país, a Rússia,
o que culminou com a tomada de poder no final do processo pelos bolcheviques.
Todos os demais países que se “tornaram” comunistas em sequência foram na
verdade anexados ao que veio a ser a URSS ou eram países sob sua influência.
Na Ásia, a China deu início a sua experiência nos meados do século
XX, e da mesma forma estendeu sua influência a países menores como Vietnam,
Coréia, Laos, Camboja.
Como dissemos não é nosso objetivo aqui fazer um tratado
detalhado.
Já no início do século XX surge uma figura menos proeminente na
época, o filósofo italiano Antonio Gramsci. Gramsci viu algo que Marx não
enxergou. Enquanto Marx pensava o homem quase que exclusivamente no aspecto da
relação econômico trabalhista e de certa forma pensou que eliminando a as
classes, patrão x empregado, resolveria a questão naturalmente, Gramsci pregava que a batalha da comunização
do ser humano teria que primeiro ser ganha em outras áreas, nas relações, na
cultura, em síntese em todos os ambientes da vida do ser humano. Enquanto Marx
vai buscar em Hegel[ii]
que a religião é o ópio do povo, porém muito mais pensando que o clero seria um
empecilho as mudanças propostas, Gramsci encara a religião cristão como algo a
ser destruído integralmente, posto que a ideia de uma sociedade familiar estruturada e cristã seria
um empecilho instransponível para essa comunização do homem.
A América Latina, países onde a economia nunca se desenvolveu de
forma plena e onde a industrialização nunca alcançou grandes patamares foi
sempre um terreno fértil para experiências exóticas vindas de outros lugares.
Basicamente Gramsci percebeu que a chamada luta de classes deveria
ser travada no ambiente cultural, e aqui entenda-se cultura não no sentido
estrito, mas no sentido mais amplo, ou seja naquilo que define uma nação, um
povo. Mais a frente falaremos da implicação disso no globalismo, mas aqui basta
a ideia posta que a cultura de uma nação precisa inevitavelmente ser atacada e
modificada para que se produzam os efeitos desejados da comunização de um povo.
“Segundo Gramsci, o objetivo da batalha pela mudança é conquistar,
um após outro, todos os instrumentos de difusão ideológica (escolas,
universidades, editoras, meios de comunicação social e sindicatos), uma vez que
os principais confrontos ocorrem na esfera cultural e não nas fábricas, nas
ruas ou nos quartéis.
Dessa forma, Gramsci abandonou a generalizada tese marxista de uma
crise catastrófica que permitiria, como um relâmpago, uma bem sucedida
intervenção de uma vanguarda revolucionária organizada. Ou seja, uma
intervenção do Partido. Para ele, nem a mais severa recessão do capitalismo
levaria à revolução, como não a induziria nenhuma crise econômica, a menos que,
antes, tenha havido uma preparação ideológica.
Segundo a linguagem colorida de Gramsci, o proletariado precisa
transformar-se em força cultural e política dirigente dentro de um sistema de
alianças, antes de atrever-se a atacar o poder do Estado-burguês. E o Partido
deve adaptar sua tática a esses preceitos, sem receio de parecer que não é
revolucionário.”[iii]
Aos poucos essa abordagem foi ganhando tons mais nítidos e cada
vez mais agressivos, o boom do politicamente correto no final do século passado
vem como uma avalanche que demorou até certo ponto a ser percebida pelo cidadão
comum.
Qualquer ideia, forma de pensar e viver que não permita o avanço do
ideal do coletivismo dever ser combatido. Os gramscianos mais modernos
perceberam que a criação de pequenos sovietes seriam a forma mais eficiente de
combater o que eles consideram como poder burguês. Para isso nichos de diversos
grupos são criados fomentando um ambiente de guerrilha na luta de classes, e
nesse caso quanto mais classes, melhor, mesmo que em alguns momentos essa
mesmas classes declarem guerra entre si, mas o primeiro passo será sempre a
tentativa de desconstrução da sociedade ocidental moldada em bases
judaico-cristãs. É bem improvável que gramscianos desejem substituir por
exemplo o modelo judaico-cristão pelo modelo mulçumano, mas no momento eles
entendem como um aliado valioso. Claro que eles pensam que amanhã podem
controlar isso, mesmo que possa parecer um gênio que é solto da [iv] lâmpada
e que dificilmente pode ser posto lá de volta.
O Gramscismo entende que a chave principal para sua
sobrevivência é o ataque ao cristianismo por ser esse um grave impedimento ao
que chamaremos da nova matriz de religiões: a dos intelectuais e a das almas
simples”.
Quem leu Admirável Mundo Novo enxergará muito
disso lá, uma sociedade coletiva onde na verdade as pessoas tem suas
atribuições e as exercem de forma feliz, porém tudo ditado por uma elite
intelectual que é quem determina tudo, sendo os iluminados que sabem tudo que
as almas simples precisam para serem felizes, o paraíso terreno também
prometido por Marx porém através da força bruta.
Claro que o bom selvagem e o mau civilizado[v]
também estão dentro desse contexto sendo bem aproveitados como mote de
desconstrução da sociedade ocidental.
Se pudermos resumir, segundo o Granscismo, quem quer que defenda
os valores tradicionais da cultural ocidental é um “fascista”, logo um mal a
ser combatido. O erro dos comunistas foi acreditar que o Estado se reduz a um
simples aparato político.
Na verdade, o Estado não é apenas o seu aparato político, mas sua
ideologia que é baseada em valores assumidos pela maioria dos membros dessa
sociedade. A referida ideologia engloba a cultura, ideias, tradições e até o
senso comum, nesses pressupostos se apoia o Estado, em ess6encia na cultura em
seu sentido totalmente amplo.
Por isso a necessidade de uma reforma intelectual e moral para
lograr uma mudança de mentalidade nas sociedades ocidentais que foram
constituídas por convicções, critérios, normas, crenças, pautas, segundo a
concepção cristã da vida, para o triunfo da revolução mundial.
E
o que isso gerou de distorção na cosmovisão cristã?
“O mundo
civilizado tem sido saturado com cristianismo por 2000 anos, e um regime
fundado em crenças e valores judaico-cristãos não pode ser derrubado até que as
raízes sejam cortadas”. Antonio Gramsci[vi]
Uma das táticas mais usuais em guerras de qualquer tipo é a
infiltração nas linhas inimigas, e o uso de contrainformação. Aos poucos,
teologias (!?) estranhas a Palavra de Deus foram sendo infiltradas na igreja e
como veremos de certa forma usando os meus meios usados fora dela, mesmo que
alguns termos sejam modificados.
Vamos ver isso muito fortemente a partir de meados do século XX
quando a igreja brasileira começa a gestar dentro dela movimentos de
“libertação” das amarras opressoras.
Primeiramente demonstrando mais força na igreja católica através
da Teologia da Libertação e posteriormente nas igrejas evangélicas através da
Teologia da Missão Integral.
O denominado Marxismo Cultural tem influenciado pesadamente a
sociedade através de ativismo educacional, ativismo nas artes, ativismo na
música, ativismo social, mas também tem adentrado nas igrejas através do
ativismo assistencialista e social.
O marxismo é anticristão em sua essência. E depois do embate
direto do século XX. A estratégia adotada depois pelos teóricos comunistas para
fazer triunfar sua fé ideológica no Ocidente tornou o inimigo invisível e imperceptível.
Eles inverteram o percurso. Ao invés da derrubada violenta do poder político
para dominar e moldar a cultura, a vitória viria pela transformação da própria
cultura, segundo os moldes marxistas. Isso seria feito de modo sutil e lento
até que a sociedade estivesse pronta para aceitar passivamente o domínio
totalitário comunista como salvação messiânica.
Essa forma de pensar seduziu muitos teólogos, inicialmente
católicos, com a Teologia da Libertação e um pouco mais tarde, evangélicos com
a Teologia da Missão Integral.
O principal pressuposto das teologias liberais progressistas mesmo
que não declarados é a possibilidade de um paraíso terrestre não transcendente.
Na verdade, muitas vezes negando a própria existência de uma esperança transcendente
futura. O ofuscamento da ideia de um paraíso futuro é necessário a elas para
que a necessidade e urgência da felicidade terrena seja vista como um alvo a
ser buscado a qualquer custo.
Feuerbach[vii]
afirmava que toda a teologia é uma antropologia, pois dizia que tudo aquilo que
se afirmava a respeito de Deus, que todas as afirmações religiosas podiam ser
reduzidas a afirmações antropológicas. Logo a religião nada mais seria do que
uma projeção da divindade a partir da própria humanidade.
As teologias da libertação e da missão integral vão beber nessa
ideia considerando como válido somente o
que é da experiência, palpável, empírico em detrimento de toda a realidade que
remeta ao transcendente. A cosmovisão cristã e sua ética nos remete
decididamente no caminho contrário, embora o reino de Cristo já esteja
implementado ela trabalha sempre com uma visão obrigatoriamente transcendente onde
os objetivos e a plenitude deste reino será completada num evento futuro fora
da decisão e da influência do homem.
O Reino dos Céus, conteúdo da fé cristã, não é o reino do amanhã,
mas é o reino do além, da eternidade, eternidade que irrompeu na história
humana e se fez carne.
O teólogo que abraça o marxismo partindo da premissa de que há um
compromisso da igreja com a solução de toda a miséria e opressão que existe,
mais uma vez sempre com a ideia da redenção dos povos pela questão econômica, e
acreditando no paraíso na terra, usará qualquer argumentação e a mudará quantas
vezes forem necessárias para embasar suas teses. Tudo o que for necessário para favorecer a revolução será feito, pois
qualquer argumento só tem validade enquanto convence. Se não convencer será
descartado.[viii]
É muito difícil para quem usa a lógica tradicional compreender a
forma de pensar de quem abraça essa teologia, falta manter a compreensão que
segundo Gramsci, bom é aquilo que ajuda a revolução, mau é aquilo que
atrapalha.
No marxismo ocorre a negação dos fatos, isto é, tudo aquilo que
não promova o socialismo - venha ser denominada de leis, preceitos, normas,
etc. Assim, todo o conjunto de elementos cristãos passam a ser adulterado. Na
concepção marxista as regras (leis) é a expressão autêntica do estado
socialista. Por conseguinte, as instituições cristãs (igreja), a família
tradicional, etc., pode ser a pedra de tropeço nos passos do socialismo
marxista, convindo à eliminação dos mesmos. O desejo de vingança de Marx era de
guerrear contra Deus. Eliminar o Criador dos corações dos homens e, instituir a
religião do proletariado. Como já dito Gramsci percebeu como seria mais fácil o
caminho da batalha espiritual.
Logo doutrinas mais complexas que possam ser empecilhos ao
desenrolar da revolução também devem ser retiradas do foco das igrejas cristãs.
Mesmo que veladamente, já que a ideia nunca será de chocar, mas minar doutrinas
caras a cosmovisão cristã que vão sendo submetidas a um olhar antropológico e
sendo modificadas, suavizadas, e até mesmo anuladas em nome do objetivo. Pecado
é relativizado e devemos encarar a pobreza quase como uma virtude.
O marxismo tem características de religião. Marx admirava Epicuro,
um filósofo grego que acreditava que o
mundo era composto de átomos que do vazio (espaço) se movem verticalmente para
baixo. É o desvio do movimento dos átomos que dá origem as coisas. O homem,
fruto desse desvio, é um combinado de átomos pesados e leves, que formam
respectivamente o corpo e a alma. Os epicuristas entendiam que a alma é mortal
e não eterna, uma vez que todo composto atômico é dissolúvel.
Rejeitando a ideia de eternidade dos corpos celestes pretendia
livrar os homens das amarras da superstição religiosa. Marx mantendo essa mesma
base ontológica para fundamentar o seu materialismo histórico conclui que “é o
material que precede e determina o espiritual, e não o contrário, como o ensina
a ética cristã”.
Um outro grande erro do Marxismo que nos parece claro ante ao
Cristianismo é a ideia de tratar tudo coletivamente. Mesmo enquanto a Bíblia
nos transmita uma ideia de irmandade única, um só rebanho, um só pastor, uma só
fé, um só Salvador, conforme João 10, vemos mui claramente que a relação de
Deus com o homem é feita de forma individual, onde cada homem responde
diretamente por seus atos, a redenção e a condenação, mesmo atingindo a muitos,
é individual.
Se nós somos cristãos e temos os nossos pressupostos baseados na
Escritura, logo, não podemos abraçar uma doutrina concorrente ao cristianismo.
Ainda mais quando esta corrente enxerga a religião, ou melhor, a metafísica
como sendo um produto da opressão, uma vez que os oprimidos a inventaram como
um entorpecente que alivia a dor (ópio).
A doutrina cristã não foi fabricada. Ela é a revelação de Deus por
meio do seu Filho, trazendo boas novas de salvação. Não que ela negue que
existam opressores e oprimidos, essa realidade existe e se lermos os profetas,
os evangelhos e as cartas apostólicas, veremos que Deus está sempre do lado dos
pobres quando os ricos não agem corretamente e tolhem a justiça, devido a sua
ganância. Mas isto é muito diferente do que almeja o marxismo.
Nos parece então que basear a interpretação do Ser de Deus,
revelado por Ele mesmo, a luz da antropologia é um erro grave. Não há como
submeter as verdades divinas aos conceitos antropocêntricos, os teólogos
liberais, claro que quanto mais liberais mais abraçarão esse método, partem
sempre de pressupostos humanistas para interpretar os textos bíblicos. Não
negamos o uso do contexto histórico social na interpretação, mas nunca os
submetendo a quaisquer ideologias, sejam de gênero, de classes, nem tampouco a
correntes como feminismo ou machismo, capitalismo ou socialismo.
Gramsci promoveu o casamento das ideias de Marx com as de
Maquiavel, considerando o Partido Comunista o novo "Príncipe", a quem
o pensador florentino renascentista dava conselhos para tomar e permanecer no
poder. Para Gramsci, mais ainda do que para Maquiavel, os fins justificam os
meios e qualquer ato só pode ser julgado a partir de sua utilidade para a
revolução comunista.
Para encerramos trazemos novamente a baila o conceito de que tudo é
valido para alcançar os objetivos revolucionários. E nesse aspecto vemos ainda
mais forte os danos que o posicionamento de certas lideranças cristãs causa. A
relativização de alguns erros em nome de um objetivo que consideram maior.
Posso me aliar a defensores do aborto, do cerceamento da liberdade individual,
da violência, do acobertamento do ilícito desde que isso seja feito em nome da
redenção da humanidade desvalida. O silêncio sobre as arbitrariedades das
implementações das ideias marxistas no mundo e das mortes causadas grita aos
ouvidos dos sensatos, mas ao ouvido dos liberais não causa nenhum incômodo,
posto que isso é visto apenas como um meio justificado pelos fins.
Ver autodenominados cristãos com escamas pesadas em seus olhos está
sendo cada vez mais comum, talvez porque mesmo os líderes sensatos têm se
omitido na ação de combater o erro.
Já nos ensina a Palavra há milhares de anos, é impossível servir a
dois senhores.
Abaixo alguns links que penso podem dar ainda mais compreensão
sobre o assunto:
[i] República de Platão
[ii] Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel
[iii] Percival Puggina em www.puggina.org.
[iv] Aldous Huxley
[v] Emile - Jean Jacques Rousseau
[vi] Cartas do Cárcere
[vii] Ludwig
Andreas Feuerbach foi um filósofo alemão. Feuerbach é reconhecido pelo ateísmo
humanista e pela influência que o seu pensamento exerce sobre Karl Marx.
[viii]
Pe. Paulo Ricardo

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