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Tolices que cantamos XII - Ele nos ungiu?




Essa música de Kleber Lucas é uma das muitas cantadas em nossas igrejas e que parece passar incólumes por uma análise mais detida, será mesmo?

O Espírito do Senhor está presente para consolar
É Deus com a gente exalando vida, forças para caminhar
O Espírito do Senhor está presente para consolar
É Deus com a gente exalando vida, forças para caminhar

E Ele nos ungiu para pregar libertação
E quebrar cadeias, prá restaurar os corações
E anunciar o ano aceitável do Senhor
Afim de que se chamem, afim de que se chamem
Afim de que se chamem, carvalhos de justiça

Na primeira parte não temos nada demais de fato, a questão começa na segunda parte baseada a princípio no texto de Isaías 61:1-3.

A questão inicial que já salta aos olhos de qualquer leitor um pouco atento é que o texto de Isaías, reproduzido a abaixo, fala claramente do Messias e não da Igreja, dos crentes.

"O Espírito do Soberano, o Senhor, está sobre mim, porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto e um manto de louvor em vez de espírito deprimido.
Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória.

Quando na letra se transmuta o sujeito da oração já se incorre num erro de atribuir aos crentes algo que é propriedade exclusiva de Cristo. Além disso, pegando pela própria palavra Cristo que siginifica UNGIDO, vamos ao segundo equívoco. Tornou-se corriqueira a ideia de UNÇÃO a partir dos movimentos neopentecostais do final do século XX. No Antigo Testamento era comum a unção de pessoas para ocuparem dois cargos específicos, Reis e Sumo Sacerdotes. 

A despeito do sacerdócio universal declarado na Primeira Epístola de Pedro, os ofícios de Rei e Sumo Sacerdote continuaram sendo atribuições exclusivas de um só, Nosso Senhor Jesus Cristo. Não há na Bíblia qualquer margem, apesar da adoção como filhos, para entendermos que assumimos atribuições que sempre foram e sempre serão exclusividade o unigênito Filho de Deus, gerado do próprio Deus na eternidade.

Fora isso, no Novo Testamento só vemos a prática da unção no tratamento aos enfermos, e no Batismo do próprio Jesus quando da declaração de Deus, "Este é o meu filho amado em quem me comprazo." 

Não vemos nos apóstolos e nem em outras passagens um ato especial de unção. Claro que pode-se atribuir a descida do Espírito Santo em Pentecostes e a descida por consequência sobre todo escolhido quando este é regenerado, mas em nada isso se compara a unção específica e destacada no AT e que é refletida pela última vez sobre Jesus, o Cristo de Deus. Importante ressaltar que tanto o Reinado quanto o exercício do Sumo Sacerdote no AT apontam para o Messias.

Tanto o espírito da música está equivocado que, ele continua na ideia de um poder especial dado aos crentes "ungidos". 

Pregar Libertação e Quebrar Cadeias. Tudo bem que o evangelho liberta mesmo, mas fomos comissionados a pregar SALVAÇÃO por meio do sacrifício expiatório do Cristo de Deus. 

O problema aí está, na ideia velada que o homem não é essencialmente tão mau assim, e que o que o prende longe de Deus não é sua maldade intrínseca e sim laços malignos de Satanás. Aliás a demonstração desse pensamento de Kleber Lucas está claro em outra música onde ele declara que "não deve nada ao inimigo" da música Perdoado a qual já tratei em outro post que pode ser lido aqui.

Para encerrar há uma incoerência nos últimos versos com o restante da letra. Ora, se assumimos que o texto de Isaías pode ser entendido como se falasse de nós mesmos, os últimos versos deveriam estar dizendo que "...  NOS CHAMEM ..." e não "... SE CHAMEM ...".

Nos parece finalmente mais uma vez a ideia bem forte em várias músicas do movimento GOSPEL  de valorização da humanidade como forma de levantar a autoestima dos crentes.

A música é bonitinha, emociona quando os ministérios de louvor a repetem quatro ou cinco vezes durante os cultos, inda mais se o líder soltar alguns bordões gospels, mas ela ensina ideais erradas a congregação.


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