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Romanos 5:1-4 - Parte II - A GRAÇA



O livro Romanos é uma fonte riquíssima para entendermos de forma sistemática a história da relação de Deus com os homens e suas implicações e desdobramentos. Mesmo trechos que parecem pequenos trazem muita riqueza para nosso entendimento.

Vamos trabalhar três artigos num desses “pequenos” trechos, não de forma exaustiva, mas vamos tentar trazer alguns ensinamentos.

No crescente do ensinamento que é carta de Paulo a igreja em Roma, o capítulo 5 introduz o conceito da justificação pela fé e trata da pacificação entre Deus e o homem.

No primeiro artigo tratamos da PAZ que temos como consequência da justificação pela fé. (Veja aqui).

Neste segundo artigo vamos tratar da GRAÇA ante o rei concedida.

“Pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.“  Romanos 5:2

De tanto ser abordado nas igrejas cremos que o conceito de GRAÇA é por demais conhecido, pelo menos academicamente. Mas vamos abordar mais uma vez mesmo que de forma resumida e simplificada.

A palavra Káris ou Charis, traduzida quase sempre por GRAÇA no NT corresponde ao hebraico HESED. Pode ser traduzido ainda como “favor”, “misericórdia”, “bondade amorosa”, ou “graça que procede de Deus”.[i] GRAÇA é favor imerecido de Deus, mediante o qual os homens são salvos por meio de Cristo.[ii]

Quando falamos de GRAÇA inevitavelmente estamos falando da regeneração, de arrependimento, de perdão, de salvação e óbvio do amor divino. Mas a GRAÇA de Deus não somente salva, mas vivifica, capacitando-os a viver em santidade. 

Como no artigo anterior vamos abordar três aspectos associados concessão dessa GRAÇA.

GRAÇA CONCEDIDA MEDIANTE CRISTO.

Não há como dissociar Graça e Justificação. Enquanto a segunda nos garante o acesso como inocentes ante o Pai, a primeira nos promove a concessão da segunda.[iii]. A graça de Deus garante gratuitamente a justificação em Cristo Jesus.

Através da morte expiatória de Cristo, a graça manifestou-se aos homens, garantindo-lhes a justificação e a vida eterna.[iv] Cristo trouxe-nos completa redenção: comprou a todos com o seu sangue[v]; redimiu-nos da maldição da lei e de nossos pecados[vi]; e, por meio do Espírito, selou-nos para o dia da redenção, segundo as riquezas da graça.

Deus é a fonte de toda a Graça[vii], e Jesus é o meio pelo qual temos acesso à ela.[viii]
A despeito de concedida da graça ser concedida sem cobrança para o homem, importante é ressaltar que ela não tem custo zero. Pelo contrário, sem o sacrifício de Cristo, um custo incomensurável, não poderia ser concedida. O preço precisava ser pago e foi através do processo expiatório.

GRAÇA ABUNDANTE, SUFICIENTE E PERMANENTE.

No mesmo capítulo, mais a frente, Paulo trata com detalhe da abundância dessa GRAÇA. No inglês existe uma expressão forte quando se quer encerrar um assunto: - ENOUGH. Uma única palavra que poderia ser traduzida como BASTA ao encerrar uma discussão, e que trazida ao nosso contexto significa BASTANTE.

Além de ser graciosa (perdão pelo trocadilho), a GRAÇA é BASTANTE para tudo a que se propõe. Talvez seja esse um dos conhecimentos acadêmicos dos mais difundidos nos arraiais evangélicos, porém tampouco vivenciados na prática.

O entendimento profundo e real que precisamos enxergar e vivenciar é que não há nada que precisemos, muito menos que possamos fazer, para entrarmos na amplitude abençoadora dessa GRAÇA. Ela nos cobre e envolve de uma forma total, completa, suficiente e mais ainda de forma permanente. Somos justificados por ela.[ix]

A GRAÇA ainda nos promove como demonstra Paulo a suportar tudo[x]. Paulo tem uma grande lista de aflições físicas, aprisionamentos, espancamentos, apedrejamentos, naufrágios, rios perigosos, assaltantes, perseguição de gentios e judeus, noites mal dormidas, frio e calor, fome e sede. Mas, de forma maravilhosa, certamente a maior preocupação de Paulo no dia a dia era o bem-estar das igrejas.[xi]

Por outro lado, não há nada que possa nos fazer perder a GRAÇA. Como presente concedido é nos impossível recusa-lo, nem antes, tampouco depois de recebe-lo.

GRAÇA PARA ENTRAR NA PRESENÇA DO REI

O terceiro aspecto que queremos abordar aqui é que a GRAÇA é concedida para entrarmos na presença do Rei. Ela é que nos concede comparecermos confiadamente diante de Deus.

Privilégio maravilhoso, mas que nos trás conjuntamente grandes responsabilidades. Como Paulo trata mais a frente quando contrapões abundância da GRAÇA contra abundância do pecado,[xii] precisamos ter em mente que GRAÇA necessariamente, enfatizamos, consequente, produz santificação.[xiii] A graça salvadora não apenas leva os homens a renunciarem a impiedade e a rebeldia contra Deus, capacita a viver de forma sóbria, justa e pia.

a)       Evitar a impiedade.   A impiedade é uma categoria de pecado que se opõe à piedade (Jd v4). Logo, inclui tudo o que a pessoa faz sem considerar a Deus a as suas leis morais (Rm1.18). O ímpio não reconhece nem admite sua dependência de Deus. Os pecados de impiedade incluem: a blasfêmia contra Deus(Sl 10.13); a malícia (Sl 34.21); a violência (Sl 140.4) e as iniquidades (Pv 5.22). O cristão deve rejeitar a impiedade, pois os que negligenciam a piedade serão condenados (Jd vv. 14,16).
b)      Evitar as paixões mundanas. Ser ímpio constitui não apenas uma maneira de pensar, mas um estilo de vida específico. Os ímpios são materialistas e sensuais (2 Pe 2.12-14) e buscam as coisas que conduzem aos apetites carnais. Em lugar do Reino e da justiça de Deus, procuram tudo o que satisfaça seus desejos pecaminosos desregrados.
c)    Viver vida sensata. A palavra sensato, no original (sophronco), quer dizer “de mente sã”, “mente sóbria” ou “temperante”. Este termo se refere à prudência e ao autocontrole proveniente de uma reflexão criteriosa. O temperante é alguém que não se deixa dominar pela ansiedade; é alguém que pondera seus atos e suas respectivas consequências de acordo com a Palavra de Deus (1 Tm 3,2;).
d)     Viver justa e piedosamente. A graça de Deus possibilita ao crente uma vida justa e piedosa diante de Deus e dos homens. O termo “piedoso” refere-se ao cristão que é reverente a Deus e pratica o bem em todos os seus relacionamentos. Uma pessoa piedosa tem como centro a vontade de Deus em todos os seus caminhos (Pv 3. 5,6; 1 Co 10.31).

CONCLUSÃO

Vemos nesse segundo verso do Romanos 5, Paulo no mostrando a segunda consequência da justificação, a entrada pela GRAÇA na presença do Rei, com todos as suas benesses e consequências.

A despeito da consequente santificação requerida, podemos entrar confiadamente na presença de Deus, porque a mesma GRAÇA que nos dá acesso e exige essa santificação, é a GRAÇA que nos capacita a alcançar essa santificação para agradar a DEUS.

Pensemos nisso. No próximo artigo vamos abordar a ESPERANÇA.





[i] Êx 34.6; Ne 9.17; Sl 103.8; Jn 4.2
[ii] Tt 2.14
[iii] Rm 3.24; 5.18
[iv] Tt 2.11,14; Ef 1.7
[v] Ap 5.9
[vi] Cl 1.14
[vii] II Co 9:8
[viii] Rm 3:24
[ix] Rm 3:24
[x] 2 Co 12:9
[xi] Cl 1.28-29
[xii] Rm 6:1
[xiii] Tt 2. 11-14b

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