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BOAZ, FIRME NA BONDADE



RUTE 2


A biografia de Rute, contada num dos livros mais emocionantes da Bíblia, bem poderia ser a história de Boaz. Neste livro, cuja história ocorre no período dos juízes em Israel, Boaz ("nele há força", em hebraico), oferece uma demonstração do que significa a bondade, fruto do Espírito, segundo o Novo Testamento (Gálatas 5.22).

Ele era primo em primeiro grau de Rute, uma moabita convertida ao judaísmo. Viúva de Malon, ela chegara aos termos de Judá acompanhando a sogra, a israelita Noemi, que resolvera voltar para sua terra depois que seu marido e seus dois filhos morreram, em busca de melhores condições de vida que acharam possíveis em Judá.

As duas fixaram-se em Belém, no período da colheita (por volta do ano 1250 a.C.). Em busca de alimento para si e para a ex-sogra, Rute dirigiu-se à fazenda de Boaz. Sem conhecê-la, seu primo a tratou com muita generosidade, como o demonstra a narrativa bíblica (Rute 2.4-18).

Segundo a tradição judaica, o parente mais próximo de uma viúva tinha o dever de se casar com ela e comprar a sua propriedade. Noemi, então, reconhecendo em Boaz um dos resgatadores de Rute, procurou aproximar a ex-nora de Boaz. Informado do compromisso, Boaz lembrou que havia um parente mais chegado que ele. Reunido o sinédrio da cidade de Belém, o anônimo parente de Rute se recusou a desposá-la.

Provavelmente ele teve medo de cair numa desgraça espiritual, já que a lei mosaica proibia que uma moabita passasse a integrar, por casamento, o povo de Israel (Nenhum amonita ou moabita, até a décima geração, fará parte do povo do Deus Eterno. Eles ficarão de fora - Deuteronômio 23.3). Boaz não deve teve o mesmo receio, especialmente depois do apoio que lhe foi dado pelo conselho local. Na verdade, apesar desta autorização, ele correu o risco de ser considerado impuro. Por este casamento, ele e sua esposa, bisavós de Davi, entraram na genealogia do Messias.

Se bondade é o amor em ação, Boaz é um ótimo exemplo.

E por seu comportamento, Boaz pode ser considerado:

UM EXEMPLO FIRME DE COMO MANIFESTAR BONDADE

Bondade é a marca mais evidente no seu jeito de ser. O livro de Rute traz diferentes manifestações desta firme bondade, algumas das quais aparecem no capítulo 2. São 3 destas manifestações de bondade que consideraremos hoje:

1.   BOAZ MANIFESTA SUA BONDADE NO MODO COMO TRATAVA AS PESSOAS.

Quando chega à fazenda para supervisionar a colheita, Boaz tem uma palavra de afetuosa saudação aos empregados. Ele diz: "O Senhor seja convosco!" (verso 4), uma expressão que aparece só mais uma vez no Antigo Testamento (Gênesis 43.23), mas muitas vezes no Novo Testamento, proferida por Jesus (Lucas 25.36, João 20.19-21) e pelo apóstolo Paulo (Romanos 16.20, 1 Coríntios 1.3, 1 Coríntios  26.13, Colossenses 4.18, 1 Tessalonicenses 5.28, 1 Timóteo 1.21, 2 Timóteo 4.22).

A prova de que não foi um cumprimento protocolar está em que notou que havia uma pessoa estranha ao grupo. Ele procurou saber: "De quem é esta moça?" (verso 5). Para tanto, ele observara o grupo. Boaz falou olhando para eles. A resposta que ouviu dos seus empregados demonstra a reciprocidade que seus gestos provocavam: "O Senhor te abençoe!" (verso 4). Parece que aqueles empregados ansiavam pela chegada do seu patrão.

1.1.      Se quisermos que palavras de bondade nos habitem e perfumem o ambiente em que vivemos e toquem os corações dos outros, porque estão tocando os nossos, precisamos nos interessar pelos resultados que nossas palavras podem provocar.

Que bem, ou que mal, fará a palavra que vou proferir  -- esta deve ser a minha pergunta, neste caminho de aprendizagem. A recomendação bíblica é que: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como vos convém responder a cada um.” (Colossenses 4.6). O apóstolo Paulo nos pede que  temperemos com sal a nossa palavra. Comida sem sal é comida difícil de ser comida. Comida com sal de mais é nociva à saúde. Nossa palavra deve ter o tempero da emoção, mas não da emoção excessiva, para não fazer mal. Em outras palavras, importa o conteúdo, mas também a forma com que se diz. Todos sabemos o quanto é boa uma palavra dada a seu tempo: “O homem se alegra em responder bem, e quão boa é a palavra dita a seu tempo!” (Provérbios 15.23).

Bondade produz bondade.

1.2.      Se quisermos que palavras de bondade nos habitem e perfumem o ambiente em que vivemos e toquem os corações dos outros, porque estão tocando os nossos, precisamos, precisamos procurar desenvolver a capacidade de prestar atenção às pessoas.

O que há de ruim nas pessoas é como um outdoor: colocado em lugares estratégicos, tem nove metros de largura por três de altura: todo mundo as vê. O que há de bom nas pessoas são como anúncios classificados num jornal; só quem vê tem boa visão e está procurando por aquilo.

Uma pessoa atrás de um balcão numa loja pode ser apenas um balconista, mas pode ser uma pessoa com nome, sobrenome e história. Isso depende de nós. Com quem e como queremos nos relacionar? Se prestarmos atenção às pessoas, nós nos relacionaremos com elas.

Quando Paulo pede que nossas palavras sejam temperadas com sal, o apóstolo Paulo nos lembra que cada alimento exige um tipo de sal (sal grosso no churrasco, sal refinado na farofa, por exemplo), como cada pessoa é diferente; cada uma precisa de uma palavra diferente.

O conteúdo pode ser o mesmo, mas a forma deve ser personalizada. Só personalizaremos o conteúdo de nossa comunicação, prestando atenção às pessoas.

Boaz notou que havia alguém diferente entre os seus trabalhadores, isso significa que ele conhecia pessoalmente cada um deles. Notar o outro é bondade.

Bondade produz bondade.

1.3.  Se quisermos que palavras de bondade nos habitem e perfumem o ambiente em que vivemos e toquem os corações dos outros, porque estão tocando os nossos, precisamos proferir palavras que abençoem.

Quando notamos as pessoas, podemos perceber suas necessidades e, logo, podemos abençoá-las com palavras de bondade, às vezes, palavras são: “O óleo e o perfume alegram o coração; assim o faz a doçura do amigo pelo conselho cordial.” (Provérbios 27.9). A Bíblia é ainda mais profunda quando diz que “Beijados serão os lábios do que responde com palavras retas.” (Provérbios 24.26).

Se for verdade que a bondade não é apenas o território da palavra, também o é que, ela se manifesta por meio de palavras.

Devemos saber que: “Como maçãs de ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Provérbios 25.11). Palavras abençoadoras são de valor inestimável.

Bondade produz bondade.

2.            BOAZ MANIFESTA SUA BONDADE NO MODO COMO ULTRAPASSOU AS FRONTEIRAS DO PRECONCEITO.

Rute não fazia parte do grupo de empregados de Boaz. Rute não fazia parte do seu grupo social. Assim mesmo, Boaz não a discriminou. Pouco depois, Rute se apresenta como é: uma estrangeira (verso 10) e, para piorar, uma moabita. Assim mesmo, Boaz, que não tinha qualquer interesse utilitário ou sentimental por ela, não a tratou indevidamente. Tudo conspirava contra Rute, quadruplamente miserável aos olhos dos homens do seu tempo: não era judia, mas moabita, mulher e viúva.

A história de Rute e de Boaz mudou porque Boaz não julgou pela aparência, porque todo preconceito é baseado na aparência. As tradições e preconceitos de seu tempo não tinham penetrado na sua vida. Antes, ele tinha a capacidade ver além das regras, para tratar as pessoas com respeito.

Sabemos que o Deus não nos vê como as pessoas nos vêem, pela aparência, mas olha para os nossos corações (O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração -- 1 Samuel 16.7). Lemos a recomendação de Jesus que não devemos julgar segundo a aparência, mas segundo a resta justiça (João 7.24). 

No entanto, também sabemos o quão difícil é julgar segundo os olhos divinos, tão humanos que somos. Por isto, continuamos julgando, mesmo sabendo que não devemos fazê-lo, para não sermos julgados, posto que o seremos julgados com a mesma medida que usarmos para os outros (Mateus 7.1-2).

O relacionamento entre Boaz e Rute só foi possível porque Boaz não permitiu que os preconceitos de sua gente habitassem sua vida.
Ainda há vítimas do preconceito social que leva muitos a julgarem os outros por sua condição socioeconômica ou escolar. A herança recebida por uma família não tem nada a ver com a sua integridade. A formação escolar de uma pessoa não tem nada a ver com a sua inteligência. No entanto, este tipo de preconceito ainda faz vítimas e há vítimas porque há algozes nos quais falta a bondade.

Ainda há vítimas do preconceito étnico, por meio do qual a cor da pele influencia a visão do outro. Não importa a cor dos olhos; eles enxergam (ou não enxergam) do mesmo modo. Todo o sangue tem a mesma cor, e logo a mesma força (ou fraqueza). No entanto, há valores preconceituosos arraigados nas nossas mentes, preconceitos que machucam. Há costas feridas porque há chicotes, brandidos por quem não é bom.

Ainda há vítimas do preconceito de gênero. Em muitas locais, as mulheres são cidadãs de segunda classe.

É possível, no entanto, que nenhum de nós se sinta enquadrado nestes tipos de preconceitos. Há outro tipo, contudo. É o preconceito difuso: não é social, nem sexual, nem racial, nem religioso, mas é preconceito. Eu me refiro a atitudes preconceituosas que não dependem destas características individuais. Se hoje eu julgo alguém por uma experiência negativa que tive com ele no passado, não estou sendo bondoso, mas preconceituoso. Se eu desprezo uma pessoa só porque não a conheço, não estou sendo bondoso, mas preconceituoso.

Uma experiência não pode determinar o comportamento daí para a frente. Um sorriso não correspondido hoje pode ser correspondido amanhã -- eis como pensa uma pessoa habitada pela bondade.
Estes preconceitos atingem a todos, pelo que os cristãos, devemos procurar olhar com o olhar de Deus, como seus embaixadores.

Bondade produz bondade.

3. BOAZ MANIFESTA SUA BONDADE NO MODO DE OFERECER GENEROSIDADE.

O que Boaz faz por Rute vai além de muitas de nossas atitudes. Sua bondade para com ela alcançou o andar superior da generosidade.
Depois de reconhecer nela uma pessoa bondosa, pelo que fizera pela ex-sogra, o fazendeiro convida para a mesa para se alimentar livre e gostosamente. Quando voltou para ao trabalho, determinou que não houvesse limitação à sua área de colheita e, mais, que fossem deixadas propositalmente espigas para que ela recolhesse no campo (versos 12 a 16).

Boaz não deu esmola a Rute. Ela teve que colher espigas. A sua dignidade estava mantida. Ao final, ela recolheu quase uma efa de cevada (verso 17), algo como 22 litros, o máximo que poderia carregar.

Boaz agia animado pela generosidade de Rute para com Noemi e por sua fidelidade a Deus, a quem um dia escolhera para servir. Havia gratidão no gesto de Boaz, mesmo que a decisão dela, não fosse em seu beneficio. O que Rute fez foi para proteger Noemi. O que Boaz fez foi para proteger Rute.

Disse Henry David Thoreau, ensaísta, poeta, naturalista e filósofo americano do século XIX, que "a bondade é o único investimento que jamais falha", e embora isto seja verdade, Boaz não esperava qualquer retorno. Que retorno podia lhe dar uma prima estrangeira, pobre e viúva?
Segundo Fredrick Faber, poeta anglicano: "a bondade tem convertido mais pecadores do que o zelo a eloqüência ou a cultura". Ela não pode visar retorno, nem mesmo evangelístico. A bondade é sempre desinteressada.

Se nosso gesto (abraçar e sorrir para alguém por exemplo) visa retorno, não é bondade. É estratégia, quando deveria ser generosidade.  Quando a nossa bondade alcança o andar da generosidade, é porque alcançamos o nível mais elevado da bondade. A palavra generosidade tem a mesma raiz (gen) de gene, genético, geração, gênesis, todas referentes ao nascimento da vida. A generosidade produz a vida. Sem uma vida generosa a vida se torna árida e vazia.

"A generosidade sopra vida nova e nos conecta com os propósitos criativos de Deus para conosco". O nosso Deus é descrito como generoso (Isaías 55.7b). Generosidade é a bondade com alegria, sem nenhuma espera de retribuição. A generosidade está na bondade da iniciativa e raramente resposta. Generosidade é a bondade que excede.

Bondade produz bondade.

CONCLUSÃO

Embora seja "muito mais fácil reconhecer a bondade do que defini-la", podemos vê-la como o comportamento natural numa pessoa espiritual. Na perspectiva bíblica, é um desejo espiritual de fazer bem aos outros. Por isto, não deve ser como que por obrigação, mas por livre vontade: “Mas nada quis fazer sem o teu parecer, para que o teu benefício não fosse como por força, mas, voluntário.” (Filemon 1.14) .

A Bíblia espera que sejamos cheios de bondade e de conhecimento, que não são antônimos: “Eu próprio, meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios de bondade, cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros.” (Romanos 15.14). 

O DESTINO DO PÃO
ISRAEL BELO DE AZEVEDO (Pastor Batista)

Lançar o meu pão sobre as águas ignotas
para ser tomado pelo bico das gaivotas?
Lançar o meu pão sobre as águas revoltas
onde serão apenas minúsculas migalhas soltas?
Lançar o meu pão sobre as águas imundas
de onde baixarão para as trevas profundas?
Lançar o meu pão sobre as águas imensas
que o conduzirão para distâncias densas?

Nada sei sobre o destino das águas
porque não sei como as ondas se formam
como não sei onde os ventos se reformam
como não sei o que as nuvens portam
como não sei porque as trevas assim se comportam.

Sei que vou recolher o meu pão lançado
mesmo que pelas gaivotas bicado, 
mesmo que pelas pedras esmigalhado,
mesmo que pelo óleo manchado,
mesmo que da viagem cansado,

porque confio na Palavra plena de Deus
que me manda meu pão sobre as águas lançar,
eis que Seus projetos são melhores que os meus,
pelo que Sua sabedoria quero tão somente alcançar.

BONDADE PRODUZ BONDADE





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