Por Marcelo Lemos
Já faz um tempo que escrevi "Razões
para não estudar teologia", artigo que foi erroneamente
interpretado, por algumas mentes menos preparadas, como sendo uma critica a
Teologia em si mesma. Interpretação prá lá de equivocada. Não apenas tenho
grande apreço pela Teologia, como também considero o exercício teológico como
sendo a atividade mais importante a qual o homem pode dedicar-se. Se é a
Teologia o "estudo sobre Deus", que de mais importante pode haver?
Uma pretensa piedade pode tentar
responder que mais importante que pensar sobre Deus é crer em Deus, ou então,
fazer a vontade de Deus. Agora observem: até para se afirmar que mais
importante que pensar sobre Deus é crer ou obedecer a Ele, se fez necessária
uma prévia reflexão sobre Deus; ou seja, se faz necessário o pensar teológico.
Pode-se, então, dizer que para negar o valor da Teologia, ou diminuí-lo, é
preciso teologar (e isso prova justamente o contrário, que ela é absolutamente
indispensável). Mas, voltemos ao ponto. Que é mais importante? A atividade
teológica ou o crer e obedecer a Deus? Certamente é preciso crer e obedecer;
todavia, é possível que qualquer destas coisas exista divorciada da reflexão?
Qualquer destas qualidades espirituais surge no vácuo, totalmente alheia ao
pensamento? Ou, ao contrário, elas brotam na mente regenerada pelo Espírito
Santo?
"Os cristãos devem
afirmar que, visto que estudar teologia é conhecer a Deus, e esse é o maior
propósito do homem, a teologia, portanto, possui valor intrínseco. Jeremias
9.23,24 diz - 'Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio em sua sabedoria, nem
se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas. Mas o
que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer,
que eu sou o SENHOR, que faço beneficiência, juizo e justiça na terra; porque
destas coisas me agrado, diz o SENHOR'" (CHEUNG, Vincent; Teologia
Sistemática; Editora Monergismo).
O homem deve crer em Deus. Esse
crer implica algum tipo de reflexão sobre Deus? O fenómeno 'religioso' está
presente em toda a humanidade, ao longo de todos os tempos. Trata-se de uma
constante tão facilmente observável, que muitos se valem dela como um argumento
a favor da existência de Deus. Mas, se por um lado a humanidade está unida pelo
fenómeno 'religioso', por outro há uma verdadeira torre de Babel no tocante a
Verdade. O Budista, por exemplo, não acredita em um Deus pessoal, em pecado ou
Redenção. Quem é Deus? O que Ele deseja? O que Ele faz? O que Ele exige? Como
podemos nos aproximar d'Ele? Vê-se que o "crer" não pode estar
dissociado de toda e qualquer reflexão, muito pelo contrário!
Há um conteúdo necessário a fé,
sem o qual ela perde seu valor, e pode até mesmo transformar-se em impiedade e
heresia. Ainda que o espírito anti-intelectual que atualmente predomina sobre a
mentalidade evangélica possa julgar tais observações frias e áridas, sua
hipocrisia será facilmente demonstrada. Venha comigo até um culto qualquer,
numa Igreja qualquer, onde o pregador se glorie em "falar mal de teólogos
e teologia". No púlpito desta mesma Igreja pode se encontrar severas
criticas a imagens de santos, procissões, e as heresias dos Mórmons e
Testemunhas de Jeová. Se a fé prescindisse de algum conteúdo minimamente
necessário, por qual razão os evangélicos simplesmente não se unem aos
católicos romanos, ou aos adventistas do sétimo dia? A resposta é bem simples:
estes grupos defendem doutrinas que consideramos erradas e perigosas, de modo
que preferimos manter uma distância segura. Queda provado, pela experiência
mais simples, que a fé exige algum tipo de conteúdo.
Ora, esse conteúdo exigido pela
fé é predominantemente intelectual. Não é um mero sentimento que separa
evangélicos e testemunhas de Jeová, por exemplo; antes, estamos separados por
razões teológicas muito precisas. E mesmo que, como vimos, isso possa ser
facilmente demonstrado empiricamente - ou seja, pela experiência -, a própria
Escritura é suficiente para demonstrar, infalivelmente, o mesmo fato.
Hebreus 11.6 diz: "Ora, sem
fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de
Deus creia que Ele existe, e que é galardoador dos que o buscam". Talvez
esta seja uma das descrições mais belas que a Escritura nos dá sobre a fé. É
uma fé que exige certo conteúdo intelectual. (1) Primeiro, a fé necessária
exige que o homem creia que Deus exista. Aqui temos um exercício intelectual: a
afirmação da existência de Deus. (2) Segundo, a fé necessária exige que o
crente acredite que Deus recompensa aqueles que Dele se aproximam. Estamos
diante de outro exercício intelectual: nem todos crêem que Deus existe e é
galardoador. Vejam os deístas, para os quais Deus existe, mas mantém-se a uma
boa distância de sua criação. A fé cristã exige uma negação do Deísmo, e uma
afirmação cristalina do Teísmo: Deus existe, está perto de nós, e interfere
ativamente nos assuntos humanos. Isso não se parece em nada com uma fé "no
vácuo", mas é, sim, uma fé com conteúdo intelectual.
Há várias crenças sobre Deus e
Cristo, mas existe certo conteúdo indispensável a verdadeira fé. Por exemplo, é
impossível ter fé verdadeira em Deus e negar a Humanidade de Cristo:
"Amados, não creiais em todo o espírito, mas provai se os espíritos são de
Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto
conhecereis o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa que Jesus Cristo
veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio
em carne não é de Deus..." (1 João 4.1,2). Outro exemplo é o máximo
destaque dado por S. Paulo a doutrina da Ressurreição de Nosso Senhor.
Segundo o Apóstolo, crer nesta doutrina cristã é necessário para a
salvação: "Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu
coração credes que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Visto que
com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a
salvação" (Romanos 10. 9,10).
"Há, de fato, uma
necessidade de estudar doutrina? Não basta que eu simplesmente ame Jesus? Para
algumas pessoas, a doutrina não só é desnecessária, como também
indesejável..." (ERICKSON; Millard J.; Introdução a Teologia
Sistemática; Editora Vida Nova; pg. 17).
Não basta, portanto, que alguém
afirme "amar a Deus", ou a "amar a Cristo". Ora, o amor que
devemos ao Deus Triúno não é a paixão amorosa canonizada em certos corinhos
"gospel". Há no verdadeiro amor a Deus certo conteúdo intelectual que
pode ser conhecido e verificado. 1 João 5.2 diz: "Nisto conhecemos que
amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus
mandamentos". Posso ouvir a estridente objeção: Você está transformando o
cristianismo em mero exercício intelectual? Na verdade, estou apenas
demonstrando um fato bíblico: a fé cristã não está divorciada de certo conteúdo
intelectual (que assumimos estar disponível nas Escrituras, claro). Há em
nossos dias um cristianismo emotivo, floreado; uma religião de sentimentos e de
emoções a flor da pele; uma religiosidade que não se importa com fatos, e que
entende o esforço para se compreender a Verdade como sendo inútil, dispensável
e até mesmo prejudicial.
Todavia, mesmo que isso desaponte
alguns, a realidade é que a fé cristã baseia-se em fatos, não em
sentimentalismos. Como o cristão pode saber que tem Deus em sua vida? 1 João
4.12 nos fornece a pista: "Ninguém jamais viu a Deus; se nós nos amamos
uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor". Não
conhecemos a Deus, sua vontade, e nosso estado espiritual diante d'Ele, através
de 'chiliques' ou convulsões pretensamente espirituais; antes, conhecemos a
Deus através do entendimento, guiados pela Revelação Bíblica. Entretanto, os
evangélicos pretendem canonizar a Ignorância, e beatificar os idiotas?
Como afirma corretamente o
teólogo reformado Charles Hodge, a mente humana é constituída de modo tal que é
absolutamente impossível que o homem deixe de sistematizar os fatos que toma
como certos. Em toda e qualquer área do saber humano é preciso que haja
julgamento, seleção e organização dos fatos. É desse modo que ocorre o avanço
do conhecimento humano. Podemos acrescentar que tal constituição da mente
humana é obra do próprio Deus, e que não deixa de ser válida quando trata-se de
conhecimento teológico.
"Desse modo se adquire
uma classe muito superior de conhecimento do que aquele que se consegue pela
mera acumulação de fatos isolados. Uma coisa é saber, por exemplo, que existem oceanos,
continentes, ilhas, montes e gente por toda a superfície da terra; coisa bem
melhor é saber as causas que tem determinado a distribuição da terra e da água
sobre a superfície do nosso globo; a configuração da terra; os efeitos desta
configuração sobre o clima; sobre as raças de plantas e animais, sobre o
comércio, a civilização e o destino das nações..." (HODGE,
Charles; Teologia Sistemática; Editorial CLIE).
Estes princípios continuam
válidos quando o tema torna-se a respeito do nosso dever de obedecer a Deus.
Devemos crer em Deus, e isso exige certo conteúdo intelectual de nós, como
vimos acima. O mesmo se aplica ao nosso dever de fazer a vontade de Deus. Fatos
bíblicos isolados tem sido a causa de muito prejuízo para o povo de Deus, e a
causa de muitas heresias que nos cercam. Todas elas, diga-se, nasceram do
desejo de obedecer a Deus, e cumprir toda a sua vontade. Mas falharam
terrívelmente. Alguns exemplos nos auxiliarão a demonstrar este ponto.
O próprio desprezo pelo saber
doutrinário é vitima deste mal agir. Que tal aquele pastor que despreza a
teologia desejando ser fiél a certo conselho paulino, que nos afirma "a
letra mata, mas o espírito vivifica"? Não é certo que seu equívoco é fruto
justamente da falta de uma correta reflexão e sistematização de um fato
bíblico? Temos aqui um fato - "a letra mata, mas o espírito vivifica"
(II Coríntios 3.6) - todavia, há questões que precisam ser respondidas para que
o interpretemos adequadamente: quem disse isso? a quem? quando? por quais
razões? Colocando este fato numa perspectiva correta, ou seja, analisando II
Coríntios 3.6 dentro do contexto da carta de Paulo, e a luz do Novo Testamento,
este pastor poderia descobrir que a "letra" que "mata"
refere-se a Antiga Aliança, "gravada em pedras" (cf. v.7ss), e não a
Teologia.
Este pastor, e uma multidão
considerável atrás dele, concluiu que obedecer a Deus exige abrir mão e até
desprezar o saber teológico. No entanto, a conclusão está equivocada - como
acabamos de demonstrar. De modo que, de forma bem simples e direta,
facilmente se demonstra que obedecer a Deus também exige do cristão algum
conteúdo intelectual. Em outras palavras, para poder obedecer a Deus é
necessário conhecer algumas coisas, do contrário, não saberemos qual é a
vontade de Deus, e o que ele exige de nós.
Quanto eu era garoto carregava
comigo uma enorme lista de "pecados" que eu deveria me esforçar para
não cometer: não assistir TV, não participar da aula de educação física (jogar
bola era pecado), não colocar minhas mãos no fliperama, não ir a festa de
incrédulos (mesmo que fosse parente), não usar "calça curta"
(bermudas e shorts), e assim por diante. Mais tarde eu descobriria outras
proibições mais decepcionantes, como não beber sequer uma taça de vinho, ou
fumar. Já superei aquela fase, mas, teve seu lado bom; especialmente porque
naquele tempo eu sabia exatamente o motivo dos judeus agradecerem ao SENHOR por
não terem nascido mulher. Ora, a lista de pecados que minha irmã deveria evitar
era muito mais sinistra e pesada: não usar calças, não usar saias acima do
joelho, não usar brincos, colares ou pulseiras, não pintar as unhas ou usar
qualquer tipo de maquiagem - e claro, o melhor de tudo, não podia andar de
bicicleta. Essa última proíbição colocava as mulheres em seu devido lugar: não
andar de biclicleta!. "Ah, Deus, como eu te agradeço por ter
nascido um pentecostalzinho homem!".
Bem, lá estava eu com meu enorme
fardo, que de tão pesado, me fazia pensar que merecia o céu mais do que certos
cristãos mundanos que eu via aqui e ali. Eu julgava que sabia exatamente o
necessário para obedecer a Deus. No entanto, eu carregava uma proibição muito
mais interessante que todas as outras juntas: eu não podia estudar teologia. De
fato, quando aos 16 anos resolvi entrar para o Seminário, meu pai ficou sem
falar comigo quase um ano, já que o pastor insistia que Teologia era coisa de
"crente frio e incrédulo". Foi minha mãe quem peitou tudo e todos e
bancou meu primeiro ano. No entanto, mesmo com tal proibição,
nós achávamos que sabíamos como obedecer a Deus. Traduzindo: éramos
teólogos feitos nas coxas que se achavam no direito de desprezar a Teologia.
Guardadas as devidas proporções, o mesmo diagnóstico pode ser feito de todo
aquele que pensa saber como obedecer a Deus, ao mesmo tempo em que despreza o
saber teológico.
Admito que, em certos aspectos,
estamos muito melhor hoje. O anti-intelectualismo predominante no pensar
evangélico atual não é, contudo, um obstáculo fácil de transpor. Há uma
abertura quase inédita para a teologia em certos círculos pentecostais e, acreditem,
se tem notícia de igrejas e ministros estarem aderindo a Teologia Reformada.
Além disso, poderíamos ainda citar o grande avanço e poder da
Teologia Reformada entre os evangélicos de nosso tempo, um fato que a Internet
tem ajudado a solidificar. No entanto, voltando a tomar o pentecostalismo como
exemplo - por encontramos nele grandes modelos de anti-intelectualismo - mesmo
com todo avanço, e mesmo entre aqueles que promovem grandes avanços
doutrinários, ainda podemos verificar o quanto se teme o saber teológico.
Recentemente tive o prazer de ler
mais um livro do meu querido Ciro Sanches Zibordi. Refiro-me ao seu best-seler "Evangelhos
que Paulo Jamais Pregaria", editado pela CPAD. Um livro muito bem
escrito, como é de costume nos textos do Pastor Ciro, e muito útil para a
Igreja atual, especialmente em sua denúncia contra certos modismos que tem
invadido nossas comunidades de fé. No entanto, apesar de suas qualidades, não
se pode deixar de notar ali, mesmo se tratando de um livro teológico, um ponta
de preconceito contra a Teologia. Vou citar um ou dois exemplos para demonstrar
o caso.
Tenho em mente, em primeiro
lugar, e de modo especial, o Capítulo 5 da referida obra, cujo título é
"Arminianista ou Calvinista?", e cujo subtítulo diz: "O
Evangelho Teológicocentrico". A se julgar pelo título do capítulo, a
intenção do autor é criticar aqueles que se colocam ou do lado de Arminio ou do
lado de Calvino. A estes ele atribui o falso "evangelho do
teologicocentrismo", ou, o "evangelho centralizado na Teologia".
Em tese, o autor não fica do lado de nenhum dos grupos! No entanto, o capítulo
faz uma salada mista danada, criticando também os evolucionistas teístas, e
outros mais, fazendo, contudo, questão de reservar a pancada maior e mais
ferina contra a Teologia Reformada, que incendiou o mundo através de homens
como Lutero, Calvino e Tomas Crammer. Que crítica é feita diretamente ao
sistema Arminiano? Previsivelmente, nenhuma.
E abram alas para o deslife de preconceitos!
(I)"Embora os adeptos do
teologicocentrismo façam da teologia a sua fonte máxima de autoridade, somente
a Palavra de Deus é inerrante, infalível e incontestável. Todas as outras
fontes servem apenas como ferramentas acessórias para interpretação das
Escrituras" (pg. 97).
Que haja teólogos que façam isso
não é de se duvidar, mas, é o caso dos Teólogos Reformados? Se é, quais? Qual
dentre os teólogos reformados - ou mesmo dentre os arminianos - defende sua
teologia como sendo mais autoritativa que a própria Escritura? Observe que aqui
não há uma critica a conclusões doutrinárias tidas como errôneas pelo autor,
mas ao próprio exercício teológico. Nem é o caso de pretendermos refutar seus
argumentos contra a Teologia Reformada. Acontece que, do modo caricato como ele
pinta os cristãos que discondam de seu arminianismo, a simples reflexão
teológica transforma-se em teologicocentrismo. Ora, por acaso existe algum
teólogo tão original que não precise, nunca, recorrer a uma outra citação dos
grande nomes da Tradição Cristã? Teria o amado irmão Ciro alcançado tal grau de
originalidade? Ou será que, ao defender abertamente em seu livro a teoria
pré-tribulacionista, ou a predestinação coletiva, seja ele mesmo um pregador de
evangelho "teologicocentrico"?
(II) "Os defensores
desse evangelho não aceitam que haja uma fonte máxima de autoridade - a
Palavra de Deus -, considerando a teologia a sua principal fornecedora de
argumentos lógicos e confiáveis. É claro que não desprezamos a grande
contribuição dos teólogos, ao longo da história, porém qualquer teologia que
rejeite a inspiração plenária da Palavra de Deus deve ser
rechaçada" (Pg. 98).
Sendo o capítulo em questão quase
inteiramente dedicado a refutar o evangelho "teologicocentrico" da
Igreja Reformada, faltou ao autor nos dizer quais de seus teólogos agem do modo
descrito por ele. Afinal, quem dentre os pilares da Teologia Reformada já negou
a "inspiração plenária da Palavra de Deus"? Calvino? Lutero? Crammer?
Knox? Witerfield? Algum outro? Ora, mesmo rejeitando boa parte da Teologia de
Jacob Arminuis, longe
de mim a atribuir a ele acusações infundadas, cujo único interesse seria
defender minha própria Teologia.
(II) "Muitos
estudiosos sinceros, ao abrir mão da Bíblia - por influência dos
teologicocentristas -, firmam-se em correntes teológicas tendendiosas,
esquecendo-se que a Palavra de Deus está acima de tudo e todos" (pg. 98).
Verdade? Mas, neste caso, como é
possível fazer teologia? Claro que a Escritura está acima de tudo e todos, no
entanto, nós não somos a Escritura, e nem somos inspirados como seus autores;
logo, cabe a nós a árdua tarefa de interpretar a Palavra de Deus - e para isso
precisamos da Teologia. Agora, vejamos: se ao escolher esta ou aquela corrente
teológica, o cristão está - como acusa o autor - colocando-a acima da Palavra
de Deus, quer dizer que "verdadeira teologia" é aquela que fica em
cima do muro, sem escolher nenhum dos lados? Há! Alguém pode responder:
"Devemos ficar do lado da Palavra de Deus!". Isso é certo, mas não
tão rápido: é fato, como já afirmamos, que o autor do livro defende abertamente
as teorias pré-milenista e pré-tribulacionistas. Ora, também é fato que nenhuma
destas duas teorias "caiu" do céu, mas surgiram na História da
Igreja. O pré-milenismo remonta aos dias de Orígenes, enquanto que o
pré-tribulacionismo nasceu com as visões da jovem Margareth MacDonald! E agora,
Ciro?
Ciro Sanches Zibordi coroa o
capítulo 5 se apresentando para "refutar" os Cinco Pontos do
Calvinismo. Como ele faz isso? Valendo-se dos argumentos que Jacob Arminus
elaborou a centenas de anos atrás! Aqui reside a maior prova do
preconceito: todas as críticas à Teologia Reformada, e nenhuma à Teologia
Arminiana! Doutrina arminiana que, aliás, é adotada pela denominação a qual o
autor faz parte. É um direito que ele tem adotar um dos lados do debate,
mas ao pintar os calvinitas como “teologicocentricos”, ou como se negassem a
autoridade das Escrituras, ou sua inspiração, sua critica acaba sendo ao
exercício teológico em si, e não apenas ao Calvinismo - além de, como
efeito colateral, iludir os incautos que imaginam que ele mesmo, o autor, não
está argumentando com base em alguma teologia específica. Ao tentar criticar um
falso evangelho - que ele chama de teologicocentrico - ele acabou cravando a
espada no coração do saber teológico em si. Eu rejeito a teologia arminiana do
Pastor Ciro, mas longe de mim lançar a ele as mesmas acusações preconceituosas
que ele dirige a nós, Reformados.
Outra prova de preconceito contra
o exercício da Teologia pode ser encontrada no Capítulo 6, no qual Pastor Ciro
se dispõe a abordar a questão da Filosofia. Novamente, misturando os temas, ele
faz nova salada ao tentar abordar a questão Escatológica para "puxar sardinha"
para a visão defendida por sua Denonimação; a saber, a visão Pré-Milenista e
Pré-Tribulacionista. Uma vez mais, o problema não está em o autor defender sua
própria visão, mas em representar de modo falso a teologia dos outros, e
transmitir a falsa ideia de que ele mesmo não seja adepto de nenhuma
teologia!
(III) "Alguns
sistemas teológicos de interpretação quanto ao futuro têm como fonte de
autoridade a razão, e não a Palavra de Deus. Não é mais fácil, em vez de
abraçar um sistema aparentemente lógico de interpretação, respeitar o que está
escrito nas páginas sagradas? Segundo a Bíblia, ocorrerá o Milênio, e Cristo
voltará antes desse período de mil anos" (Pg. 124).
Segundo ele, apenas a sua
teologia - a saber, a Pré-milenista - tem a Bíblia como fonte de autoridade.
Apesar de ele limitar o alcance de sua afirmação començando a frase
com "alguns sistemas", o fato é que, a conclusão é justamente o
oposto disso, uma vez que ele associa a negação da teoria Pré-Milenista com a negação
da Bíblia como fonte de autoridade. Além do evidente preconceito (para não
dizer injúria), este paragrafo do livro demonstra outra triste
realidade: que nossos principais teólogos brasileiros - e tenho, sem
hipocrisia, Ciro Sanches em tal estima - ou ainda estão devendo em matéria de
conhecimentos teológicos, ou em conhecimentos de lógica, uma vez ser difícil
acreditar que alguém possa se contradizer tão claramente num mesmo parágrafo.
Mas, a auto-contradição ainda não acabou; depois de chamar todos os não
Pré-Milenistas de hereges, e defender abertamente o Pré-Milenismo, ele nega que
o seu próprio Pré-Milenismo seja verdadeiro: "Como se vê, é a
Palavra de Deus quem tem razão! E não o pré-milenarismo, o pós-milenismo ou o amilenismo..." (Pg.
125).
Não é o caso de não se poder
criticar esta ou aquela teologia, como se todas fossem igualmente verdadeiras.
Isto seria um erro tão grave, ou ainda maior, que o cometido na obra acima
citada. Certamente há teologias ruins, e até perniciosas. É o caso, entretanto,
de se analisar as conclusões obtidas pelo exercício teológico de alguém, e não
o exercício teológico em si. Quando você desqualifica alguém pelo seu exercício
da teologia, não é o erro que sai prejudicado, mas a Teologia mesma. Pensar
sobre Deus, ou seja, fazer teologia, é a mais sublime atividade que o homem
pode exercer, e, até certo ponto, todos dedicam-se a ela - até mesmo os ateus e
agnósticos.
Infelizmente, há tanto
preconceito contra o saber teológico, que o simples ato de defendê-lo
provavelmente soará estranho aos ouvidos de uma maioria. Nada há de mais valor,
apesar de todo o preconceito da nossa era, que rejeita um passado grandioso, no
qual a Teologia era a "rainha" das ciências. Apesar de não ser bom
negócio abrir novo tema em um texto que se pretende concluir, acrescento ainda
que o saber teológico é necessário "não apenas para as atividades cristãs,
mas também para tudo da vida e do pensamento" (CHEUNG). Tudo, sem
exceção. Chegará o dia em que, com a Graça de Deus, em cumprimento de Seu Plano
Redentivo, a Igreja buscará nas Escrituras a vontade de Deus para a moral, a
economia, a política, a ciência, a educação, a tecnologia, e tudo o mais.
Vivemos, porém, em dias de grande
preocupação com o imediato, o prazer do agora, e os benefícios pessoais.
Alugamos salões e garagens; recusamo-nos a edificar cadetrais. Somos a geração
do descartável, inclusive em nossa religião. Temos, claro, alguma teologia, mas
que de tão rasa, é como se, de fato, não a tivéssemos, e quase torna
verdadeira a ilusão de não a termos (exatamente como gostaríamos). Estamos
perdendo o barco da História; por nos esquivarmos do objetivo maior da
existência - conhecer a Deus - tornamo-nos irrelevantes. Olhando em volta,
notamos que o evangelicalismo moderno não sabe nem o que crer sobre Deus, nem
em como obedecê-lo, já está passando da hora de perdermos o medo
de pensar.
Marcelo Lemos, teólogo com muito
gosto

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